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Cinema

Não sei bem quando começou essa paixão. Talvez tenha sido herdada: a mãe sempre gostou. Inclusive, um dos primeiros encontros com o pai foi vendo “Tubarão”, em um antigo cinema da cidade (como aprendi a chamar o Centro desde criança). A minha primeira sessão nessa sala mágica foi na Penha, em um cinema de bairro que não existe mais, o São Geraldo. Era imenso, repleto de poltronas de couro avermelhado, e uma tela que, devido à minha estatura na época, parecia ainda maior. Ali eu vi muitos filmes, sendo a minha experiência favorita a de assistir ao “Batman – O Retorno”, em 1992. Minha memória já não é mais a mesma, mas eu me recordo de que, naquela época, a Pepsi contava com uma promoção em que a gente achava algumas imagens impressas na parte de dentro das tampinhas metálicas das garrafas e, juntando um determinado número, trocava por algo na bilheteria. O que era? Eu não me lembro mais... Só sei que eu juntei várias tampinhas, afinal, Batman era o meu herói favorito (ainda é: adoro como o único superpoder dele é ser um oligarca safado que precisa de terapia). Um dos meus aniversários infantis, por sinal, foi temático sobre o Batman: e eu odiei ter perdido a vela em forma de morcego depois de um tempo.

            O cinema não era o meu único acesso aos filmes. Em 88 o pai comprou um videocassete com um colega que viajava ao Paraguai com frequência: era muito comum isso, aliás – sempre alguém conhecia um fulano que era amigo de sicrano e que pedia ao beltrano para atravessar a fronteira com equipamentos importados. A reserva de mercado que o Brasil sofreu nos anos 1980 deu esse efeito mesmo: todos procuravam em outros países objetos mais em conta. Com esse videocassete – e eu jamais me esquecerei – veio o primeiro filme que alugamos em uma locadora: “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. Não vou cair na repetição de que esse filme me impactou profundamente e me fizesse, de certo modo, ser arqueólogo hoje em dia: quero abordar como os meus olhos não desgrudaram da tela. É claro que eu era muito novo e não entendia o filme direito, mas ver um televisor ligado a outro aparelho transmitindo imagens e sons era fabuloso! Aquela cena do coração... Ah, quanta beleza!

            Felizmente havia uma locadora na rua de casa. Toda sexta-feira era o velho ritual de alugar filmes para devolver na segunda. Como éramos os únicos da família que possuíam um VHS, a parentada toda aparecia lá em casa para ver filmes aos domingos. Depois do almoço composto por macarrão e frango, filmes. E eram dos mais variados gêneros: de comédias ao terror, de desenhos à ficção científica (foi aí que começou meu encanto por “Guerra nas Estrelas”, mas isso é outra história). A verdade é que aquele aparelho eletrônico conseguia criar um ato social incrível: a gente ria, se emocionava, ficava quietinho... E eu olhava para aquele videocassete com uma paixão que mal cabia em mim. Eu queria saber o que havia dentro dele, porque ele me fascinava tanto. Bem, foi o que fiz... Um dia, enquanto meu pai trabalhava fora, aproveitei o fato de uma visita conversar com a mãe na cozinha e meti a chave de fenda nele. Abri mesmo. Sem dó. Como um cirurgião que pega uma pessoa e só enxerga um pedaço de bife. Eu não entendi nada daquilo, mas vi várias peças coloridas bonitas. Fui tocar em uma e tomei um choque (hoje, sei que era um capacitor). Fechei tudo correndo, mas devo ter feito tudo errado, porque depois do pai chegou em casa e a cinta cantou... Tudo pela Ciência, não é mesmo?

            Mas voltando ao cinema enquanto espaço físico, normativo, quase votivo, eu aproveitei a adolescência também em suas dependências. Ia com os amigos no início, e a gente via vários filmes de ação, principalmente baseados em videogames. Era legal, não dá para negar. A escola fazia com que a gente pagasse meia entrada, então era a alegria de nossas vidas, ainda mais em uma época em que os cinemas em shoppings ainda não eram uma realidade tão difundida. Porém, o mais legal ainda foi quando chegou a idade de convidar alguma garota para ir ao cinema: é óbvio que não vou dizer para você que levei várias: não se esqueça de que sou eu que estou escrevendo esse texto e, justamente por isso, leve sempre o fator “fracasso” em consideração. Convidei muitas? Claro. Muitas aceitaram? Quem dera... Mas me lembro de uma que aceitou e que foi bem interessante, porque me obriguei a deixar o filme de lado (que eu queria muito ver) para, claro, dedicar atenção à ela: jamais vou esquecer o sabor de bala de anis que ela tinha na boca – eu adorei imediatamente! Até hoje é uma das minhas balas favoritas. E me lembro também do perfume de chiclete dos cabelos dela. Olha, foi bom.

            Em 2011 foi a minha vez de fazer uma “estreia” no cinema: uma animação minha foi selecionada para uma mostra de arqueologia na USP. E ali, na plateia, meu coração quase saía pela boca: é muito estranha a sensação de você estar sentado sentindo-se julgado. No fim, deu certo. Mas, disso tudo, o que mais me lembro é que não me senti muito satisfeito: não pela estreia, mas, sim, porque tive de deixar meu pai no hospital para ir a ela. A balança da vida é sempre meio equilibrada, não é? Isso cansa.

            Acho que eu poderia ficar mais algumas páginas escrevendo sobre filmes, cinemas e a importância disso tudo para mim, enquanto pessoa e profissional. Contudo, esse assunto só me veio à cabeça porque hoje passei o dia limpando minha coleção de filmes. Há anos venho colecionando, com muito carinho. Tenho tudo o que mais admiro nela. E hoje eu me senti nostálgico ajeitando os filmes porque sei que em breve irei me separar deles (ao menos, por um tempo). Você pode me dizer: “Mas existe streaming para isso”. Sim, eu sei. Contudo, esses filmes, em seus formatos físicos, sempre irão remeter à minha infância, quando eu tocava neles para colocar no aparelho e, junto com minha família e parentes, assinar o contrato invisível entre o cineasta e o espectador: aquele que diz que nas próximas horas, tudo o que estiver na tela, será real também. E como é bom viver muitas realidades.

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