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Olho mágico

     Seu cunhado já dormia no outro quarto. O ronco chegava aos seus ouvidos, compassando a triste melodia da madrugada. O velho problema para dormir... há anos enfrentava o tratamento contra a insônia também. Contudo, esse começara quando novo, pouco depois de conquistado o emprego atual. Sua esposa reclamava, dizia que ele precisava abandonar o cargo, trazer segurança para a sua família. Deixaria de lado, sim. Na verdade, pensava em fazê-lo quando o bebê nascesse. O fundo de garantia lhes daria uns meses de sossego: tempo para arranjar outra ocupação. Mas depois daquele dia sua vontade minguou, carregando-o para um futuro rotineiro.      Sentiu a bexiga cheia e levantou-se para se aliviar. Do banheiro, foi à cozinha: dentro da geladeira, vitimada pelo fim do mês, avistou e agarrou o resto da caixa de leite. Devolveu a embalagem vazia à prateleira do mundo branco, apagou a luz e quis voltar para o quarto. Porém, ao caminhar, notou a claridade do hall por entre as frestas da porta. Ou
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Sketch

Acorda. Levanta. Sente o cheiro de terra molhada. Choveu essa madrugada? Nem percebi, talvez sim. Olha para trás. Emaranhado de panos, pernas e cabelos. Deitada está. Feliz? Difícil saber. Torçamos para que sim. Unhas coloridas descansam entre flores estampadas já desbotadas. É só um sonho. É apenas mais um sonho. Prepara o café. Cheiro bom. Gosto amargo. Por que insiste nisso? Não sabemos. Senta à mesa. Corta o pão com as mãos. Mastiga. Gole de café. Mastiga. Engole. Olha o relógio na parede. Apesar de tudo, ele não parou. Gostaria? Provavelmente, sim. O violão está ali no canto da sala. Não tocou mais. As coisas vão perdendo o sentido. Talvez nunca tenham tido. Mas é assim mesmo. Ela ainda dorme. Não irá acordá-la com barulhos. Dia de descanso. Pega papel, pincel, pena. Rabisca. Moça sorridente. Merece sempre ser assim. Torçamos para que seja. Derrama água sobre as rugas amareladas. Esfrega cerdas na tinta. Toca levemente no papel. Temos um braço, uma perna, um corpo, cabelos que

Aqueles que ficam

Quando criança, sempre me perguntava porque o pai tinha os olhos daquele jeito. Tristes. Focados no horizonte. Calados, tal como sua boca: sempre foi um homem de poucas palavras, exceto nas ocasiões em que tinha de explicar algo. Aí eu via algum desconhecido incorporar o pai, pois ele mudava de atitude e uma pequena chama brilhava em seus olhos. Ali, ele parecia se esquecer do mundo, de seu passado, de nossa vida afastados da cidade, do horizonte que seus olhos sempre buscavam e encontravam apenas lágrimas minúsculas que enchiam os balaios presentes abaixo de suas vistas. O pai não parecia o mesmo nessas horas. Eu ficava admirado e assustado ao mesmo tempo: via um homem repleto de conhecimento explicando coisas que eu não entendia, e dentro de mim ficava me perguntando como ele seria se apenas essa parte dele aflorasse. “Eu nunca fui bom em falar” – às vezes ele me dizia. Eu reconhecia isso, mas não era inteiramente verdade. Ele apenas não era bom em dizer coisas do dia a dia.      O

Marca-passo

Apenas uma pequena faixa de luz entrava ali na sala. Uma teimosa claridade de uma cortina mal fechada da varanda. Pendurou as chaves na parede e tirou os sapatos: mais tarde teria de lavá-los, mas não agora. Não nesse momento. Deixou a claridade incomodar seus olhos cansados de uma madrugada agitada, sem dormir. As coisas já não andavam bem. Agora, pareciam ainda piores. Desabotoou a camisa e afrouxou o cinto. Seguiu para o banheiro. Tirou a roupa e deixou no canto, com as lembranças das lágrimas presas na quina dos olhos. Ligou o chuveiro e a água quente escorreu por sua nuca, descendo pelas costas antes de forçar o pescoço para trás e molhar os cabelos despenteados. As lembranças ali eram todas brancas. Luzes brancas. Corredores brancos. Gente chorando. Gente gritando. Gente gemendo. Todas as reações abafadas por máscaras de pano duplo sob luzes brancas em corredores compridos brancos. Lavou as mãos e lembrou do toque da pele dela. “Vai ficar tudo bem, filho. Vou ficar bem” – dis

Impasto

                Infelizmente, ninguém viu. A manhã daquele dia estava ensolarada, com o azul da cor de giz de cera. Estava borrado com nuvens brancas fofinhas e o sol parecia sorrir. Dia quente, é verdade: fazia jus às mãos dela, que descansavam na janela. Olhava o mundo através da rede presa ao vão que separava aquela moça do restante do mundo: mundo infeliz que jamais pôde assistir à cena de agora. A rede era uma proteção para o seu amigo felino felpudo. Todos da casa tinham medo de que ele pudesse, em um repentino flerte com o papel de super herói, pular pela janela atrás de alguma borboleta ou ave. Ela olhou para o chão e sentiu a falta dele roçando suas pernas. É bem verdade que viveu muito, e foi muito feliz, mas que falta ele fazia... Trazia alegria para a casa, todos mimavam o reizinho e, mesmo em seus últimos dias, quando debilitado, ele foi soberano: ela o tratou como filho que era, beijou e chorou por uma saudade que sabia que viria. E ela, de fato, veio. Seus olhos de f

Sundae

Quando criança, a gente ia na vó quase todo fim de semana. Era sempre uma alegria. Via meus primos e primas. Brincava na rua. Voltava esfolado de ralar o dedo no asfalto jogando bola. Tomava o chá mate mais quente da face da Terra (até hoje não sei como a vó conseguia esquentar tanto aquilo). Comia bolo batido a mão, já que ela não gostava de batedeira. E, quando noitinha, vinha dormindo no carro do pai até chegar em casa. Geralmente isso acontecia aos domingos. Era algo bom. Sinto falta disso às vezes... Falta dessa sensação de apenas viver com a única responsabilidade de ter de ir para a escola. Mas isso é inevitável eu acho. Envelhecer, digo. Ficar velho é inevitável e o tempo, e as obrigações, chegam a todos.             Acho que não lembro da figura de meus pais mais jovens. Tenho a imagem deles sempre velhos em minha cabeça. A maior parte dessas imagens, eu não consigo desvencilhar de algumas idas a hospitais. Vi o pai e a mãe usando aquelas camisolas de pessoas doentes mais ve

Todos os Santos

  O relógio não dava sossego. Minuto a minuto, as horas escorregavam refletidas na parede do quarto escuro. O rádio relógio, herança de seu pai, parecia lembrá-la do que o velho sempre dizia: “Tenho orgulho de você M. C., minha filha, mas é preciso ter a cabeça no lugar”. E isso era o que ela necessitava fazer nesse momento: permitir que os pensamentos angustiantes fossem para longe da cidade. Fácil não era. Não naquela noite. Não depois do que acontecera...                 Rockford Hills. Lugar de gente rica, claro. Ela passara uma boa parte da infância por ali, perambulando com a amiga que conhecera em uma das idas à praia durante o verão. A amiga morava em uma das casas mais abastadas do bairro. Mas M.C. só vira da rua: o pai da garota nunca permitiu que pessoas da zona leste entrassem na residência. O trato com a filha era: pobres não passam do portão. A moça não parecia se importar com a proibição paterna, mas isso, no fundo, machucava o coração de M.C.. Às vezes, as duas entrav