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Deckard 1138

Duas coisas incomodavam o Sr. K...: a primeira era o seu pássaro, uma calopsita, que há quatro dias estava tristonha, amuada no poleiro da gaiola, sem soltar um pio, tadinha da bichinha; a segunda, era o atraso na visita que receberia aquele dia – havia se passado mais de meia hora e nada de ela chegar.      Há exatamente noventa dias, o Sr. K... recebeu a carta da Companhia de Desligamento. “Prezadíssimo Sr. K..., viemos por meio desta informar que chegou a sua hora! Como o senhor bem sabe, novas gerações precisam de espaço e conforto: somente assim nosso país continuará a ser forte e relevante. Pedimos a gentileza de acertar todas as contas em pendência (caso as tenha): lembramos que os novos inquilinos não arcarão com possíveis custos após o seu desligamento, ficando a dívida para até a sua décima primeira geração. Por favor, enumere na Ficha dos Afazeres, anexada, as atividades que deseja serem realizadas após a sua partida do imóvel. Na esperança de encontrá-lo na mais perfeit
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Grayskull

O primo nunca foi uma pessoa muito fácil. Desde criança, sempre foi aquele primo chato, que implica com tudo e nada está bom. A gente jogava bola na rua e ele sempre arrumava confusão nos gols. Era um pouco irritante. Acho que ele não gostava muito de ter de ir com o tio e a tia nas visitas. Queria ficar sozinho a maior parte do tempo, rabiscando seus cadernos e falando com quem não existia. Eu sei que toda criança faz isso. Falar com os brinquedos. Primo tinha alguns bonecos e ficava horas ali, ajoelhado na frente do sofá ou na beira da cama, conversando com eles. Às vezes, eu participava também. Na minha mochila, sempre carregava o boneco do príncipe Adam, a versão “sem graça” do He-Man. Não me pergunte o porquê. Acho que eu sempre gostei de coisas “realistas”. O príncipe era apenas uma pessoa normal, sabe? Ele só virava outra coisa quando evocava os poderes de Grayskull: aí ficava fortão, com aquela roupa estranha que eu nunca fui muito fã. Mas, para o primo, aquele era o grande m

A quermesse

Embora a lógica aponte para um domingo, muito provavelmente era um sábado. Talvez uma sexta? Devido ao fato de os primos terem ido dormir lá em casa, arrisco a dizer que não poderia ser um domingo, uma vez que é nítida a imagem de a gente indo à locadora alugar jogos durante o dia. Então, sim: não era um domingo. Era qualquer outro dia. Mas não um domingo. Domingos são morosos, em ritmo de ansiedade noturna pela segunda-feira. Aos domingos a gente come e morre. E se arrepende disso quase com uma culpa cristã, martelando na alma o desperdício de vinte e quatro horas em absoluto nada (como se fosse errado descansar). Para fins de falha de memória, vamos assumir que era um feriado de sexta, tudo bem? Assim eu consigo justificar a ida à locadora durante o sábado e o almoço em família no domingo antes de meus primos serem devolvidos aos meus tios.      Pois bem. Quando criança, a gente não tem muita opinião. Bom, até temos, mas ela nunca é ouvida ou respeitada. Comigo não foi diferente: sem

Cinema

Não sei bem quando começou essa paixão. Talvez tenha sido herdada: a mãe sempre gostou. Inclusive, um dos primeiros encontros com o pai foi vendo “Tubarão”, em um antigo cinema da cidade (como aprendi a chamar o Centro desde criança). A minha primeira sessão nessa sala mágica foi na Penha, em um cinema de bairro que não existe mais, o São Geraldo. Era imenso, repleto de poltronas de couro avermelhado, e uma tela que, devido à minha estatura na época, parecia ainda maior. Ali eu vi muitos filmes, sendo a minha experiência favorita a de assistir ao “Batman – O Retorno”, em 1992. Minha memória já não é mais a mesma, mas eu me recordo de que, naquela época, a Pepsi contava com uma promoção em que a gente achava algumas imagens impressas na parte de dentro das tampinhas metálicas das garrafas e, juntando um determinado número, trocava por algo na bilheteria. O que era? Eu não me lembro mais... Só sei que eu juntei várias tampinhas, afinal, Batman era o meu herói favorito (ainda é: adoro com

Forças

  A mãe sempre foi uma mulher forte. Talvez a mais forte que já existiu. Gosto de pensar nela como uma grande árvore que dá abrigo, sombra, e não se dobra ao vento. Eu queria ser assim também. Mas sou diferente, de um outro modo. E hoje percebo que existem vários tipos de “força”, e que todos são válidos, mesmo que alguns nos inspirem mais do que os outros. Eu tive de lutar comigo mesmo por quase uma vida inteira para aceitar o fato de que eu posso, sim, ter momentos de fraqueza, e que eles não me tornam fraco. Ao contrário: reconhecê-los, encará-los e aceitá-los são a minha força, uma vez que passar pelas coisas e ainda assim me manter em pé todos os dias demonstra que, de certo modo, sou especial em meu mundo.                 A mãe, embora forte, nunca se permitiu guardar as emoções. Estou acostumado a ver suas lágrimas, de alegrias e tristezas, desde que nasci. Puxei ao pai, no entanto, durante meu crescimento: aguentando a dor sem molhar os olhos. Hoje entendo que isso não foi bo

Rio-grandino

O raio de luz atravessa a extensão toda e morre quase na janela oposta. Ele só vem me visitar ao final da tarde. Aproveito e deixo minhas pernas esticadas em seu caminho: sinto o calor agradável de um cobertor no inverno. Espero não ficar bicolor. Mas, pensando bem, faria pouca diferença – apenas saio de casa usando calça: nunca fui adepto de bermudas para sair.                 Existe uma mosca rondando minha cabeça também. Ela se aproveita de meu momento de estase para pousar em meu joelho ensolarado e desfrutar de seu bronze sobre uma carne. Olho pela janela e vejo de onde ela veio: o vento balança as folhas das bananeiras do outro lado do muro. Cachos de bananas verdes se intercalam nelas, lembrando que ainda não devem ser arrancados. O que eu acho estranho na cena é a falta de cheiro vinda do terreno vizinho. Aqui, sinto apenas cheiro de chuva e areia, nada de bananas. Talvez seja assim mesmo e minha mente de homem urbano me pregue uma peça.                 Eu queria que algum

A dor de meu pai

O pai tinha aquele jeito calado. Austero. Principalmente na frente de estranhos. Só falava o essencial e, às vezes, aquelas poucas palavras machucavam muito: lembro do mano chorando quando ouviu um dia o pai falando ao professor que talvez ele não tivesse nascido para estudar, que seria sempre burro. Pai era o oposto da estupidez. Acho que nunca conheci alguém que gostasse tanto dos livros. Ele deixava a gente brincando na sala e se enfiava no quarto para ter sossego com suas páginas. Eram livros amarelados do tempo, com cheiro de vó. Eu achava estranho aquilo: um homem vivendo onde a gente vivia e lendo tanto.      Aos domingos, depois da missa, o pai comprava pipoca doce pra mim e meu irmão. Sempre gostei daquele sabor. E adorava ficar com os dedos manchados de vermelho – eu me sentia um ser de outro mundo, igual aos que via nos gibis dos primos. A mãe acompanhava a gente até a casa da vó enquanto o pai seguia seu rumo. “Deixe ele” – a mãe dizia quando perguntávamos. “Tem o mundo d