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A dor de meu pai

O pai tinha aquele jeito calado. Austero. Principalmente na frente de estranhos. Só falava o essencial e, às vezes, aquelas poucas palavras machucavam muito: lembro do mano chorando quando ouviu um dia o pai falando ao professor que talvez ele não tivesse nascido para estudar, que seria sempre burro. Pai era o oposto da estupidez. Acho que nunca conheci alguém que gostasse tanto dos livros. Ele deixava a gente brincando na sala e se enfiava no quarto para ter sossego com suas páginas. Eram livros amarelados do tempo, com cheiro de vó. Eu achava estranho aquilo: um homem vivendo onde a gente vivia e lendo tanto.      Aos domingos, depois da missa, o pai comprava pipoca doce pra mim e meu irmão. Sempre gostei daquele sabor. E adorava ficar com os dedos manchados de vermelho – eu me sentia um ser de outro mundo, igual aos que via nos gibis dos primos. A mãe acompanhava a gente até a casa da vó enquanto o pai seguia seu rumo. “Deixe ele” – a mãe dizia quando perguntávamos. “Tem o mundo d
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Alguns fluidos minutos de sua paciência

Gostaria que você tivesse paciência hoje, que respirasse fundo e me desse uma chance para explicar uma sucessão de erros. Sei que sempre pude contar com você e, na minha esperança, ainda estará aí quando chegar à linha final.                 Eu adoro canetas. Mesmo a minha letra sendo bem ruim. Não que ela sempre tenha sido assim, mas, de incontáveis anos pra cá, ela é quase ininteligível até mesmo para mim. Eu escrevo tudo torto no papel. Meu “m” e “n” são praticamente um risco só. E eu como letras como se fossem cereais com leite. Espero, de verdade, que as minhas anotações pessoais e cartas jamais tenham importância no futuro, pois sinto pena do paleógrafo que teria essa hercúlea tarefa. Quando criança, minha letra era minúscula e deitada para a direita. Mais de uma vez, as professoras brigaram comigo, dizendo que era difícil enxergar. Sempre tive a mão pesada para escrever, e meus cadernos eram quase todos repletos de vestígios decalcados. Mas eu gostava, mesmo, era da sensação

Areté

Uma vez eu li, em algum lugar, o Foucault falando sobre si mesmo, dizendo que não era necessário saber o que ele era exatamente, pois, se soubéssemos o que diríamos ao final de um livro, teríamos a coragem de escrevê-lo? Talvez Foucault não entendesse muito bem o processo de escrita literária, ou apenas tenha sido um escorregão dele, mas creio que a mensagem desejada foi alcançada. Lá estava eu, com meu copo de plástico repleto de café, em uma manhã outonal próxima de meu aniversário. Havia chegado mais cedo do que o costume, o laboratório ainda não estava aberto para começar o dia de trabalho. Ainda não era adulto, mas já havia me estragado com a leitura compulsória de coisas fantasiosas e carregava orgulhosamente um exemplar d’ A Sociedade do Anel debaixo do braço. Eu era estagiário e ganhava pouco, é claro. Mas eu usava o dinheiro para pagar meu curso técnico e o resto gastava com as mesmas bobagens que consumo até hoje: músicas, filmes, livros. E uma vez atrasei o pagamento da me

Sobre as flores que nunca lhe dei

Hoje a gente se viu. Fazia o quê? Quinze, vinte anos que não lhe visitava? Sei que fui sem avisar. Quase não achei sua casa, ela está bem diferente de como me lembrava. Talvez mais alta, creio. Um pouco mais suja, certeza, mas isso não é culpa sua. Nunca foi. O importante é que lhe encontrei e pude conversar. Eu estava precisando. Muito. E agora você sabe o porquê.                 As coisas não andam fáceis. Não só para mim, claro, mas... Só posso ser responsável por mim mesmo. Sabe, se não fosse essa situação em que a gente mal pode andar pela rua, provavelmente eu iria resolver as coisas de outro modo. Não iria lhe visitar. Não lhe daria esse desgosto, acho. Nem me sentiria humilhado por isso. Eu caminharia para longe, no meio das pessoas, e pararia em algum banco, sentando-me e criando histórias para quem passasse por ali ao mesmo tempo em que beberia algo forte para minha cabeça parar de pensar um pouco. Eu faria isso. E teria sido melhor do que lhe ver. Mas eu só pude pensar em

Doce de abóbora

Entre minha casa e a escola havia sete quarteirões. Sei bem disso e nunca vou esquecer: eu caminhava, todas as manhãs, os sete quarteirões, sentindo o peso inexorável da má vontade infantil em acordar cedo e ser arrastado, sob chuva ou sol, pela linear rua de horizonte inalcançável. E lá aprendia que, as orações escritas anteriormente, eram coordenadas, subordinadas, encaralhadas... Não que desgostasse da escola: ali eu li Astérix pela primeira vez, aprendi que alguns respeitos a gente impõe pela força, e também tive minha(s) primeira(s) paixonite(s). Isso, aliás, já rendeu pano pra manga na terapia.                 Qual era o nome dela? “Sabe, acho que o nome dela era Vanessa. Sim, dancei com ela na festa junina do pré”. (Olhar neutro psicanalítico). E o que você pensa sobre ter dançado com ela? “Eu era o mais gordo da turma. Talvez ela tenha tido pena, sei lá”. (O olhar neutro psicanalítico continua). Talvez ela tenha querido. (Após levar dois ou três segundos para ente

Olho mágico

     Seu cunhado já dormia no outro quarto. O ronco chegava aos seus ouvidos, compassando a triste melodia da madrugada. O velho problema para dormir... há anos enfrentava o tratamento contra a insônia também. Contudo, esse começara quando novo, pouco depois de conquistado o emprego atual. Sua esposa reclamava, dizia que ele precisava abandonar o cargo, trazer segurança para a sua família. Deixaria de lado, sim. Na verdade, pensava em fazê-lo quando o bebê nascesse. O fundo de garantia lhes daria uns meses de sossego: tempo para arranjar outra ocupação. Mas depois daquele dia sua vontade minguou, carregando-o para um futuro rotineiro.      Sentiu a bexiga cheia e levantou-se para se aliviar. Do banheiro, foi à cozinha: dentro da geladeira, vitimada pelo fim do mês, avistou e agarrou o resto da caixa de leite. Devolveu a embalagem vazia à prateleira do mundo branco, apagou a luz e quis voltar para o quarto. Porém, ao caminhar, notou a claridade do hall por entre as frestas da porta. Ou

Sketch

Acorda. Levanta. Sente o cheiro de terra molhada. Choveu essa madrugada? Nem percebi, talvez sim. Olha para trás. Emaranhado de panos, pernas e cabelos. Deitada está. Feliz? Difícil saber. Torçamos para que sim. Unhas coloridas descansam entre flores estampadas já desbotadas. É só um sonho. É apenas mais um sonho. Prepara o café. Cheiro bom. Gosto amargo. Por que insiste nisso? Não sabemos. Senta à mesa. Corta o pão com as mãos. Mastiga. Gole de café. Mastiga. Engole. Olha o relógio na parede. Apesar de tudo, ele não parou. Gostaria? Provavelmente, sim. O violão está ali no canto da sala. Não tocou mais. As coisas vão perdendo o sentido. Talvez nunca tenham tido. Mas é assim mesmo. Ela ainda dorme. Não irá acordá-la com barulhos. Dia de descanso. Pega papel, pincel, pena. Rabisca. Moça sorridente. Merece sempre ser assim. Torçamos para que seja. Derrama água sobre as rugas amareladas. Esfrega cerdas na tinta. Toca levemente no papel. Temos um braço, uma perna, um corpo, cabelos que