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Aqueles que ficam

Quando criança, sempre me perguntava porque o pai tinha os olhos daquele jeito. Tristes. Focados no horizonte. Calados, tal como sua boca: sempre foi um homem de poucas palavras, exceto nas ocasiões em que tinha de explicar algo. Aí eu via algum desconhecido incorporar o pai, pois ele mudava de atitude e uma pequena chama brilhava em seus olhos. Ali, ele parecia se esquecer do mundo, de seu passado, de nossa vida afastados da cidade, do horizonte que seus olhos sempre buscavam e encontravam apenas lágrimas minúsculas que enchiam os balaios presentes abaixo de suas vistas. O pai não parecia o mesmo nessas horas. Eu ficava admirado e assustado ao mesmo tempo: via um homem repleto de conhecimento explicando coisas que eu não entendia, e dentro de mim ficava me perguntando como ele seria se apenas essa parte dele aflorasse. “Eu nunca fui bom em falar” – às vezes ele me dizia. Eu reconhecia isso, mas não era inteiramente verdade. Ele apenas não era bom em dizer coisas do dia a dia.

    O pai também não sabia lidar com agradecimentos. Certa vez, a tia passou muito mal e teve de ser internada. Ela morava na cidade e a gente teve de ir visitá-la. Eu adorava ver a estrada pela janela sempre semiaberta do carro antigo: herança de anos de falta de manutenção. Chegando na casa dela, fui brincar com os primos enquanto o pai ajudava o tio a instalar um apoio no banheiro. A gente jogava videogame na sala. Essa lembrança é muito forte ainda: aquele mundo colorido e barulhento dos personagens pulando na tela da TV grande era a antítese de nossa vida no campo. Perdemos horas ali. Fomos chamados para o almoço e comemos juntos, menos a tia, que descansava no quarto. Não sei bem que doença ela tinha, era algo que ninguém gostava de nomear. O pai e o tio evitavam conversar sobre isso à mesa, mas depois, durante o café após a comida, eles foram no minúsculo quintal dos fundos para prosear. As paredes caiadas precisavam de uma nova demão, estavam manchadas de fuligem da fábrica vizinha, e o pequeno quadrado de terra ostentava uma roseira quase morta, sobre a qual eu lembrava ter espetado o dedo quando mais novo e chorado profundamente quando o pai me bateu por ter me machucado no espinho: não pranteei a dor da perfuração e do sangue em forma de gota – chorei pela vergonha que causei ao pai na casa do tio ao ter ido tocar em algo proibido. Naquela tarde, eu tinha permissão de ir ao quintal com os dois: meus primos, que eram “imaturos” segundo palavras do pai, tiveram de permanecer na sala jogando. Sentei no chão, ao lado do pai, que fumava junto ao tio em cadeiras separadas. “Ela está morrendo” – disse o tio. O pai continuou a disputar com a fábrica geminada quem emitia mais poluentes. “Os remédios são caros. A firma vai fechar mês que vem. Eu já não sei mais...” – a voz do tio tremulou. Pressenti que aquele homem adulto iria desabar e fiquei muito desconfortado: homens choravam? Eu era uma criança ainda, podia ter meus momentos de lágrimas. Mas nunca havia visto o pai derramar uma lágrima sequer. Seus olhos marejavam, sim, mas aquelas águas salgadas ficavam empoçadas ali, sem jamais escorrerem. O pai era forte, acho. Forte para não demonstrar o tanto de dor que carregava dentro de si. Prefiro acreditar nisso. Naquele momento de fragilidade do tio, o pai pigarreou e pegou a carteira. Sacou dela algumas poucas notas coloridas e as deixou na mesa entre os dois. O tio respirou fundo, olhou pro pai, e meneou assentindo. Era isso: não precisavam de palavras. O tio sabia que jamais deveria agradecer ao pai. O pai sabia que o tio estava agradecido. Não devia pronunciar isso. “É minha irmã” – disse o pai antes de se levantar para irmos embora. Foi a última vez que viu a tia com vida.

    No dia em que anunciei ao pai o meu noivado, ele apenas fez que sim com a cabeça. Isso me bastava. Sabia que ali estava um gesto de orgulho. Foi a última vez que falamos sobre a mãe também. Já era noite e eu tinha de voltar para a cidade: meu trabalho era longe de casa e precisava acordar cedo. Jantamos e ficamos na sala vendo um pouco de futebol. O pai, calado como sempre, parecia enxergar algo além daquilo que a tela mostrava. Seu olhar perdido era cada vez mais corriqueiro. “Pai...” – criei coragem para quebrar o silêncio que reinava apesar do som baixinho do televisor. “Eu penso nela todos os dias. Eu quero que você seja feliz” – foi a primeira vez que escutei ele me desejando isso. “Eu nunca fui uma pessoa boa para você. Eu sei que não consigo me expressar. Sei que isso o afetou também: sua namorada me disse uma vez que você havia puxado de mim o gosto por ficar quieto” – ele baixou os olhos, mirando o tapete que estava ali antes mesmo de eu nascer. “Ela dizia que eu era gentil. Eu dizia que ela era a mulher mais linda que já existiu. Eu escrevia poemas para ela. Escrevia... Colocava em palavras o que não conseguia falar. No começo, ela adorou. O sorriso de canto da boca dela sempre me fascinou e era o motivo de eu acordar mais cedo todos os dias para vê-la deitada na cama e agradecer por alguém como ela gostar de algo como eu. Depois, a vida seguiu o seu rumo natural, claro. Eu conheci pouca gente antes dela. Todas foram embora. Acho que enjoavam de minha presença, de minha quietude. Com ela não foi diferente. Um dia ela se encheu de mim e partiu. Levou você ainda bebê. Eu fiquei desesperado por dias até aquele telefonema... Você ficou bem e lhe trouxeram de volta para mim. Criei você da melhor maneira que pude. Sei que falhei. Eu sou assim. Um dia você também irá partir depois de perceber que não valho a pena”. As mãos do pai tremiam.

    Então descansei minha mão sobre a dele, sem olhar em seu rosto. Continuamos assistindo ao futebol na TV, em silêncio. Com o olhar fixo em algo muito além do televisor, percebi o vulto de meu pai levando a mão livre aos olhos.

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