Pular para o conteúdo principal

O gato da Srta. J.

O gato da Srta. J. é um gato mandrião. Um gato safado. Um gato ladrão.

                Observe bem ele aí dormindo: está quieto, olhinhos fechados, quase sorrindo. Ele ronrona de vez em quando, principalmente quando está encostado na Srta. J. O gato lembra bastante um milk shake de caramelo, com a cor acastanhada misturada ao branco em listras que compõem uma estratigrafia imprecisa (e falar de falta de contornos em gatos não é surpresa alguma). Ele está deitado de lado, de costas para a sua companheira, Srta. J. Ela não é dona dele, e ele sabe muito bem disso. Ele sabe que todas as manhãs é obrigação dela dar a sua comida. Também sabe que ela deve acariciar sua cabeça e costas, ao menos, quinze vezes ao dia: menos que isso, é inadmissível, e seu comportamento será o de mostrar insatisfação derrubando algo pelo simples prazer de ver a Srta. J. tendo de se abaixar para pegar: “E, assim, ela me reverencia, é bom mesmo!” – pensa ele.

                O gato da Srta. J. chegou quando ainda era pequenino. Ele tinha olhos grandes, mas meio fechados, e adorava repousar e passar suas unhas afiadas na cadeira mais cara da casa. Dizem as más línguas que a Srta. J. nunca quis, de fato, um gato: “Eles dão trabalho. Quebram as coisas. Fogem de casa. Eu não quero me apegar. Filho, desce daí. Filho, quer comida? Filho, onde está? Filho, vem deitar. Filho, eu te amo. Filho, Ah!” – e assim a Srta. J. deixou de não querer um gato. Ele parecia uma salsichinha quando chegou: era magrinho e espichado. Mas a Srta. J. logo começou a servir ao gato e, em pouco tempo, ele cresceu e engordou. No inverno, ela gosta disso: ele sendo gordinho, a esquenta na cama todas as noites. E aqui estamos nesse momento: observando o gato da Srta. J. dormindo encostado nela. “O mundo poderia acabar em barranco” – pensa ele.

                A Srta. J., por sua vez, dorme como o gato: com um leve sorriso no rosto. Ela sempre sorri, e o gato é mais um gatilho dos risos que acontecem todos os dias. O gato da Srta. J. faz bem à ela. Quando acorda, a Srta. J. prepara sua caneca de café e coloca ração para o gato mandrião. Ele nem dá bom dia: corre para o pote e enche as bochechas felinas com o mesmo sabor de sempre. A Srta. J., então, começa seu dia de trabalho, tentando estudar e escrever: ela tenta, pois entre uma atividade e outra, o gato surge na frente do computador exigindo as carícias na cabeça e costas. Gentilmente, a Srta. J. o coloca no chão, e ele vai embora indignado com a humana. Assim têm sido os recentes dias da Srta. J. “Dessa vida, reclamo, não” – pensa ele.

                Porém, o gato da Srta. J. tem um segredo que somente nós dois, você e eu, saberemos agora: ele é um gato quase humano. O gato da Srta. J. tem a mania de, todas as madrugadas, acordar e ver como a mulher está. Ela jamais se perguntou porque sempre acorda com os pés cobertos: é ele quem, de mansinho, puxa com seus dentinhos a ponta da coberta para cobri-la. Depois desse ritual noturno diário, o gato volta para os braços da Srta. J. e sente a respiração gostosa dela em seu focinho – ele sente o seu mundo como se estivesse em um barco em águas calmas, com a brisa roçando seu rosto. Ele abre bem os olhos e repara na face da Srta. J., dormindo tranquila: “Ela é linda, é maravilhosa, é incrível! Ela é muito ronrom”. Ele observa os contornos do rosto dela, e, com sua patinha, sente a textura de sua pele. E assim o gato da Srta. J. permanece por muito tempo, torcendo para que ela faça o que ele mais ama: abrir os olhos.

                Quando a Srta. J. abre os olhos de madrugada e vê o gato, ele sente seu mundo parar. Ele se perde nos grandes olhos da Srta. J., olhos que só merecem a felicidade. Os olhos da Srta. J., disse uma vez um poeta, são como dois grandes faróis no horizonte cheio de neblina – eles guiam os homens para um porto seguro. “Sorte de quem for esse marinheiro perdido” – pensa ele. Mas a verdade é que o gato da Srta. J. é um mandrião, um safado, um ladrão. Quando o sono a vence e ela volta a dormir, o gato da Srta. J. sorrateiramente estica o pescoço e encosta sua boquinha nos deliciosos lábios dela. O gato rouba beijos safadamente. E ela aproveita o toque para sonhar com grandes aventuras em terras distantes, lutando lado a lado com o guerreiro amado.

                Esse é o gato da Srta. J. Um gato mandrião. Um gato safado. Um gato ladrão.


Postagens mais visitadas deste blog

As visitas indesejadas

                 Chá é algo que fui aprendendo a gostar. Tenho os meus preferidos, claro. Não sou muito adepto do chá preto puro, mas gosto das combinações que fazem com ele. Às vezes, me sinto como o capitão Picard. E, às vezes, uso a desculpa do chá para ter uma caneca quente para segurar nos dias mais frios. No verão, chá mate gelado, claro.             O chá tem sido meu companheiro – ou companheira – durante os momentos que recebo visitas. E elas sempre chegam aqui em minha casa. Estou eu ali quieto, fazendo as minhas coisas, e ouço alguém batendo à porta. Eu já sei que, nesse momento, as coisas mudarão. Eu me levanto da cadeira ou do sofá, passo pelo corredor e abro a porta. E ali está a visita. Às vezes ela está sorridente. Em outros momentos, triste. Muitas vezes séria. De vez em quando com raiva. Eu simplesmente a deixo entrar: não tenho outra opção. Não mais... Enquanto ela toma um assento, eu vou para a cozinha e preparo o meu chá.             Eu tento não ser mal educad

A dor de meu pai

O pai tinha aquele jeito calado. Austero. Principalmente na frente de estranhos. Só falava o essencial e, às vezes, aquelas poucas palavras machucavam muito: lembro do mano chorando quando ouviu um dia o pai falando ao professor que talvez ele não tivesse nascido para estudar, que seria sempre burro. Pai era o oposto da estupidez. Acho que nunca conheci alguém que gostasse tanto dos livros. Ele deixava a gente brincando na sala e se enfiava no quarto para ter sossego com suas páginas. Eram livros amarelados do tempo, com cheiro de vó. Eu achava estranho aquilo: um homem vivendo onde a gente vivia e lendo tanto.      Aos domingos, depois da missa, o pai comprava pipoca doce pra mim e meu irmão. Sempre gostei daquele sabor. E adorava ficar com os dedos manchados de vermelho – eu me sentia um ser de outro mundo, igual aos que via nos gibis dos primos. A mãe acompanhava a gente até a casa da vó enquanto o pai seguia seu rumo. “Deixe ele” – a mãe dizia quando perguntávamos. “Tem o mundo d

Forças

  A mãe sempre foi uma mulher forte. Talvez a mais forte que já existiu. Gosto de pensar nela como uma grande árvore que dá abrigo, sombra, e não se dobra ao vento. Eu queria ser assim também. Mas sou diferente, de um outro modo. E hoje percebo que existem vários tipos de “força”, e que todos são válidos, mesmo que alguns nos inspirem mais do que os outros. Eu tive de lutar comigo mesmo por quase uma vida inteira para aceitar o fato de que eu posso, sim, ter momentos de fraqueza, e que eles não me tornam fraco. Ao contrário: reconhecê-los, encará-los e aceitá-los são a minha força, uma vez que passar pelas coisas e ainda assim me manter em pé todos os dias demonstra que, de certo modo, sou especial em meu mundo.                 A mãe, embora forte, nunca se permitiu guardar as emoções. Estou acostumado a ver suas lágrimas, de alegrias e tristezas, desde que nasci. Puxei ao pai, no entanto, durante meu crescimento: aguentando a dor sem molhar os olhos. Hoje entendo que isso não foi bo