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Sr. Cabeça Cortada

O Sr. Cabeça Cortada não era um homem comum. Não. Seus vizinhos tinham medo quando o viam na rua. E mesmo quando estava dentro de casa. E isso quer dizer: quase sempre. Saía raríssimas vezes. Levava um embrulho em papel pardo debaixo do braço, rente ao sobretudo preto esfarrapado. Parecia mais um mendigo com aquelas luvas sem dedos e a barba mal feita. As crianças o apelidaram cabeça cortada por causa da grande carapuça que usava, cobrindo-lhe os olhos, deixando apenas a boca e o queixo à mostra. Elas, claro, tinham mais medo do que os adultos. Diziam que matava bebês e bebia seus sangues. Afirmavam que sequestrava os alunos na escola da vila e vendia seus órgãos. Outros, mais espirituosos, eram da tese de que ele fora um professor e por isso, sempre as sextas à noite, uma vez por mês, carregava seu embrulho com avaliações para a encruzilhada: amaldiçoava os burros. O Sr. Cabeça Cortada era uma incógnita para todos. Não aparentava ser muito jovem. Tampouco era decrépito. Aquele homem estacionara numa idade indecifrável, naquela onde a voz é firme o bastante, embora fraqueje às vezes quando emocionada. Emoção: coisa que o Sr. Cabeça Cortada talvez nunca sentira em vida.

 

            Nasceu de uma família pobre, operária. Herdou a casa velha quando sua mãe morreu de tuberculose. O pai? Abandonara os dois quando o pequeno tinha 5 anos. Mas o Sr. Cabeça Cortada não se intimidou diante das dificuldades da vida: continuou respirando e trabalhando com alguma coisa relacionada aos correios. Nunca se casou. Apaixonou-se, sim. Algumas vezes. Entretanto, foram namoricos nada sérios, desses que duram pouco e fogem da cabeça logo. Vivia em sua solidão sem cores. Respirando os ácaros da mobília suja de seu quarto, lendo seus livros amarelados e repetidos, dormindo à luz de vela. Sr. Cabeça Cortada nunca amou. Ao menos, não a uma pessoa. Se tivesse amado, sua existência ganharia outros matizes e deixaria de ser tão desfocada. Se assim o fosse, as crianças da rua pediriam para ele chutar a bola de volta ao invés de correrem assustadas. Os vizinhos dariam bons dias, boas tardes, boas noites, como vais, tudo bens, felizes aniversários etc., etc. O sol cantaria uma canção de prazer todas as manhãs e o rosto da amada estaria sempre estampado em sua memória cotidiana. Mas Sr. Cabeça Cortada não tinha coração para tanto. Era amargo e desagradável. Cuspia quando os pequenos fugiam. Não atendia à porta quando algum desconhecido – certamente mal informado – tocava a campainha. E raramente lavava aquelas roupas escuras: motivo das pessoas jamais ficarem ao seu lado.

            Certa noite Sr. Cabeça Cortada saiu com o embrulho em mãos. Ia colocá-lo na caixa de correio, mas a sede lhe importunou. Sentia a boca seca, a mesma sensação de todas as manhãs quando acordava e notava a camada áspera agarrada a sua língua: saburra encrostada. Foi ao bar fedorento nas ruas de cima. Não havia uma alguma sequer naquela bruma enegrecida da cidade dominada por fábricas. Mas Sr. Cabeça Cortada se sentia seguro, e confortável, em meio à escuridão. Não era desses que se amedrontavam com ladrões ou homicidas. Conhecendo Sr. Cabeça Cortada, diria até que é o contrário. Homens malvados e perigosos evitavam contato com ele. Afirmavam que cumprira pena na penitenciária estadual. Diziam que ele matara 5 famílias antes de ser preso, e que assassinara mais 15 homens na cadeia. A verdade, talvez, é que a aparência do Sr. Cabeça Cortada não apetecia: era muito pobre sequer para ser roubado. Mas o que importava no momento é que aquele ser tinha sede, e era bom de copo. Chegou ao bar, sentou-se à mesa mais afastada e sem iluminação e pediu seu destilado.

            Bebia goles curtos, chiando como quem toma sopa. Sr. Cabeça Cortada lembrava uma grande serpente enquanto degustava seu álcool. Acendeu um cigarro e o colocou entre os lábios secos. Encostava-se a escuridão para que os outros (no caso, apenas o dono do recinto) não vissem sua mão. Aquele homem tinha vergonha de mostrá-la. As pontas dos dedos do Sr. Cabeça Cortada eram pretas como necrose. De todos os dedos da mão direita. Porém, mesmo assim, continuava a usar as luvas cortadas e surradas. Dava um trago, bebia um gole e tamborilava os dedos da mão desocupada sobre o embrulho pardo: um piano invisível recebia seus acordes em Ré menor. Então fechava os olhos e esforçava-se para ouvir a melodia opaca.

            Passava da meia-noite quando entrou uma estranha pela porta gasta do bar e ficou encostada no balcão. Sr. Cabeça Cortada mirou o vulto, aquela sombra mulheril em vestido longo. Cofiou a barba e deu a última tragada no cigarro: seus olhos refletiram as brasas repletas de nicotina. Levantou-se e caminhou para perto da mulher. Pigarreou. Antes distraída com algo em seus sapatos, a dama levantou a cabeça. Então Sr. Cabeça Cortada ficou estarrecido. Não havia rosto naquela cabeça. Apenas os longos cabelos que corriam pelos ombros delicados agitavam-se no ar. Sr. Cabeça Cortada gritou. Ou tentou, na verdade, pois nenhuma voz foi escutada. A mulher avançou contra ele, agarrando em seu pescoço. “Desgraçado! Foi você, foi você!” – ela berrava sem os lábios. Sentia a mão firme estraçalhando sua traquéia, ficando sem oxigênio. “O que eu lhe fiz? Por que me usou desse jeito? Fui um bom material para você?!” – continuava a ressoar a voz intimidadora. No limite de suas forças, Sr. Cabeça Cortada agarrou a pequena faca que sempre carregava no bolso interno do sobretudo. A lâmina entrou a primeira vez na barriga. Na segunda, alcançou a junção do pescoço com os ombros e ali permaneceu. A mulher agonizou e caiu de costas. Sr. Cabeça Cortada recuperou o fôlego e guardou a faca. “Vo-você viu o que ela fez, não viu?!” – perguntou ao dono do bar, mas não havia ninguém ali. Desistindo de procurá-lo, Sr. Cabeça Cortada se ajoelhou sobre o cadáver. Na hora em que virou o corpo para cima, teve a segunda surpresa da noite. Com a faca presa à carne estava o homem que minutos antes lhe servira a bebida. O dono do bar estava morto e em seus olhos via-se o terror. Sr. Cabeça Cortada levou as mãos à boca e abafou o gemido que lhe corroia a alma. Jogou-se num canto do salão e permaneceu em silêncio, olhando a cena de seu ridículo crime.

            O que fazer? – pensava Sr. Cabeça Cortada, desesperado. Enquanto passava vistas em todo o lugar, à procura de alguma solução, deitou as pupilas sobre o embrulho que permanecia na mesa. O papel ganhara um tom dourado e, em toda a cinzenta e enevoada sala, parecia ser a única coisa com vida no momento. Sr. Cabeça Cortada mirou o pacote. Ficou tempo suficiente para entender o que devia ser feito. Fechou os olhos por alguns instantes e, quando os abriu novamente, estavam mudados. Seus escondidos olhos sorriam acompanhando os lábios. Um sorriso fino, sem mostrar os dentes. Um sorriso doentio era o que o Sr. Cabeça Cortada tinha em seu rosto. Correu para os fundos do bar e juntou o máximo de trapos que conseguiu. Era noite. Era um lugar violento. Era o Sr. Cabeça Cortada que voltaria para casa: e todos se afastam dele.

 

 

Stars shining bright above you...

Sr. Cabeça Cortada está em seu escritório dentro de casa. Um afiado bisturi separa a epiderme, a derme e a hipoderme dos músculos de um braço. O cadáver tem uma profunda marca no pescoço. Outros pedaços de pele já foram retirados e estão secando em um varal improvisado.

 

Night breezes seem to whisper ‘I love you’…

Sr. Cabeça Cortada retira as tábuas do piso da sala e carrega um corpo para dentro de um buraco sem luz. Entre ratos e baratas, cava um buraco de bom tamanho. Joga a carcaça dentro e enterra. Há muitos buracos tapados ali. Sr. Cabeça Cortada retorna ao escritório e separa as peles secas.

 

Birds singing in the sycamore tree…

Sr. Cabeça Cortada pega em sua pena e molha na tinta preta. Gotas escorrem entre seus dedos antes de ele pousar a mão sobre a pele lisa. Escreve um poema enquanto assobia a canção que toca no rádio. Está satisfeito, por ora. Recolhe as páginas-dermes e as costura, formando uma lombada.

Sr. Cabeça Cortada coloca as páginas junto com as demais e refaz o embrulho pardo. Escolhe como destinatário um endereço qualquer, tomando sempre o cuidado de apagar quaisquer vestígios sobre sua localização e identidade.

 

Sr. Cabeça Cortada está escrevendo a última palavra quando um forte barulho o assusta, espirrando gotículas de tinta sobre o embrulho. São crianças jogando futebol na rua e acertando a sua porta. Sr. Cabeça Cortada maldiz as crianças e retoma sua tarefa, aumentando o som do rádio para não ser mais importunado.

Dream a little dream of me...


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