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Allison Gross

Olhava as cenas dinâmicas do televisor. Intermitentemente, a sala escurecia por instantes. Mas não adiantava: não havia nada de interessante nos canais. Um bocejo. Dois. A entediante falta de concentração... Levantou-se. Na cozinha, tirou a groselha e o leite da geladeira. Despejou o xarope sobre o conteúdo branco e viu, como num passe de mágica, as cores se fundirem em um rosa pálido. Bebeu sua poção. Limpou os lábios com a ponta da língua. Reparou pela fresta da porta que a luz do hall acendera. Pequenos passos ligeiros pararam em frente ao apartamento vizinho. Campainha. O rapaz, dono daquele abafado lugar, atendeu as crianças. Pelo olho-mágico, observou suas mãos fortes distribuírem balas e pirulitos aos fantasiados monstros, vampiros e super-heróis do condomínio. Um esboço de sorriso se formou em sua pele de algumas décadas. Apertou as mãos delicadas e voltou para a sala. Rapidamente, esvaziou a minúscula bomboniere da estante e voltou a espiar pela porta, com chocolates quase escorregando pelos seus dedos. As crianças foram aos dois vizinhos da frente e receberam muitos quitutes. Quando uma das meninas ia apertar a campainha de seu apartamento, foi barrada pelas demais. “Você é louca? Vai chamar a bruxa?” – ao que outra emendou: “Dizem que ela mata a gente e depois come”. Houve ainda um “come a gente e depois mata”, mas nesse ponto os pequenos já entravam no elevador, partindo para a aventura no andar superior.

            Começaram a surgir marcas em suas mãos. O rosa pálido de sua tez ganhou nódoas esbranquiçadas e os chocolates foram todos esmagados. Arremessados contra a pia da cozinha, juntamente com uma gotícula salgada que escorrera pela bochecha e agarrara-se à ponta do cabelo. Estancou com os pés sobre o frio piso marmóreo. Uma sensação de cansaço castigou seu corpo. Não conseguia pensar. Sua respiração estava acelerada e só piorava devido ao cerramento dos dentes, que pareciam mastigar a si próprios. Sentiu-se humilhada pela dúvida: teria seu vizinho escutado as palavras das crianças? Ele teria rido daquilo? Será que também achava que ela fosse uma... Seus pensamentos foram cortados pelas unhas que lhe machucavam o monte de Vênus. Atentou para a palma da mão ferida: sua linha da vida era curta demais, e correntes contornavam seu pulso.

            No banheiro, abriu o espelho e retirou o frasco de água oxigenada. Os finos cortes borbulharam, carregando o pouco sangue pelo ralo. Fechou o espelho e se admirou. Suas rugas. Suas olheiras. Sua pele que caía. Seu nariz de um tamanho que a incomodava. Tudo o que via lhe dava desgosto. As crianças não estavam tão erradas, afinal – pensou consigo. Talvez não fosse o fato de sempre reclamar do barulho que elas faziam. Tampouco, ter votado contra a utilização da verba para a reforma do playground: menos brincadeiras, menos barulho, menos crianças – foi seu argumento na reunião daquele dia.

            Foi para a cama e teve uma noite agitada.

 

            Pela manhã, vestiu seu casaco escarlate e foi trabalhar.  A fábrica de perfumes não era o lugar mais aprazível do mundo. Sentia-se enjoada com aqueles aromas. Passou em frente ao laboratório de criações e achou bonitas todas aquelas cores nos frascos. Seguiu e trocou-se no vestiário: jaleco branco, luvas, touca, máscara. Cumprimentou os colegas de trabalho e sentou-se diante da enorme esteira. Um vidro após o outro passavam por ela, que os agarrava e rotulava, depois colocando-os em caixas. A cada duas horas, tinham dez minutos de descanso. Então aproveitava para saborear a vermelhísssima maçã que trazia de casa. Comia em silêncio, apenas escutando as conversas das mulheres. Conversas sobre namorados e maridos, filhos e sogras. Reparava nas alianças em seus dedos e, de repente, a maçã ganhava um sabor novo, apodrecido. Engolia com sofridão e voltava ao trabalho.

            Ao final do expediente, bateu seu cartão e foi à pequena loja que a empresa mantinha para os funcionários. Tudo com desconto. Havia recebido o salário há três dias e... bem, ainda assim sobraria uns trocados. Olhou os frascos nas prateleiras e pediu para experimentar alguns. Não entendia muito de fórmulas e acordes, mas um dos perfumes lhe pareceu essencialmente delicioso. Sorriu. Pagou e, no canto da loja, meio escondida e sem jeito, despejou gotinhas de divindade em seus pulsos, pescoço e orelhas. Estava, agora, gostosamente perfumada. Para quem? Só ela sabia.

 

            Quando o elevador abriu, deu de cara com seu vizinho. Ficaram breves segundos se olhando. O homem pigarreou, como se dizendo, “desculpe, mas devo descer”. Ela saiu de sua frente, sorrindo até o momento em que o elevador sumiu. Dentro do cubículo, o rapaz sentiu-se maravilhado com aquele aroma ao mesmo tempo seco e temperado com maçã. E lembrou dele durante o resto da noite em seu trabalho.

            Ela ficou extasiada. Não acreditava que um simples perfume teria tal efeito. Desde então, programou os horários de seus ônibus e metrôs, a fim de que batessem com a saída para o trabalho de seu vizinho. E deu certo: por meses eles se viram. Por meses ela deixava seu rastro perfumado no elevador, embebedando-o. Por meses ela frequentou a loja, diminuindo o estoque do produto.

           

Certa tarde, graças a um dia de folga, foi ao cabelereiro. Gastou um bom dinheiro se embelezando, ficando bonita para ele. Quando a noite chegou, correu para o elevador e desceu. Aguardou uns cinco minutos, até que chegasse a hora de ele sair do apartamento. Quando os ponteiros marcaram o correto, adentrou o equipamento e apertou o número de seu andar. Fingindo naturalidade e surpresa, avistou seu vizinho com a mochila, pronto para o trabalho. Esse dia a conversa foi além de simples boas noites ou atés logo: ele estancou, mirando o esplendor da mulher. Não pôde deixar de reparar em seu cabelo ajeitado, e a elogiou sinceramente. Ela se derreteu. Pela primeira vez, beijaram-se no rosto, despedindo-se.

Aquela noite ela não dormiu.

 

O fim de ano se aproximava daquela época em que trocas de presentes são inevitáveis. Ela pensou consigo mesma: “Ora, irei comprar uma lembrancinha para ele! Tenho certeza de que gostará!”. Acertou. O homem adorou a camisa de seda perolada dada num gesto de ousadia, cerca de duas horas antes da saída dele para o trabalho. Embora não tivesse nada na hora para retribuir – e ela insistisse que não queria nada – ele lhe comprou rosas no dia seguinte. Quase chorando, ela agradeceu com a alma.

 

A areia do tempo foi caindo e sua curiosidade foi aumentando. Por que ele não dizia nada? Por que não a cortejava? Por que não a beijava ou acariciava? “Por que não me ama?” – pensou ela. Em uma das noites, após despedirem-se, resolveu o seguir – “de longe”, segundo ela – para ver onde trabalhava de domingo a domingo. Embarcaram no metrô, e ela quase o perdeu na multidão quando desceram no Centro da cidade. As ruas eram bem mais escuras naqueles cantos. Ele encontrou uns amigos, apertou-lhes as mãos e conversaram por alguns minutos. Depois, cada um se dirigiu a um quarteirão. Seu vizinho foi para a esquina e permaneceu ali, fumando. Não demorou muito para que um carro encostasse. Ela reparou que uma mulher dirigia e que abrira a janela do passageiro para conversar com ele. Após breves instantes, seu vizinho entrou no carro e partiram rumo ao bairro da cidade conhecido por seus pernoites.

Gotículas salgadas se misturaram ao perfume que passara no pescoço.

 

Em casa, olhou-se no espelho. E arranhou seu rosto com o máximo de força que pôde. Bateu os punhos na pia, derrubando o espelho. Junto com os cacos no chão, sua vida se esvaiu. Caiu se contorcendo com fortes dores no estômago. Suas mãos se fecharam envolvendo os pedaços de vidros. E só acordou quando o dia se fez presente, observando as manchas vermelhas secas que estavam no banheiro.

Naquela noite, observou pelo olho-mágico seu vizinho a procurando no hall, em vão. E seus lábios tremeram.

 

Sete dias se passaram. O homem estava assistindo TV quando ouviu uma delicada batida na porta. Abriu e ali estava sua vizinha com um sorriso bondoso e uma taça em mãos. “Desculpe incomodar, mas é que ganhei um vinho e gostaria de compartilhá-lo. É muito triste beber sozinha!” – riu. Ele concordou em acompanhá-la. No apartamento dela, admirou a belíssima e enorme árvore de Natal que alcançava o teto. Sentaram-se no sofá e conversaram um pouco. Ela foi até a cozinha e trouxe a garrafa de vinho com as duas taças douradas.

Brindaram.

Ele bebeu e ela riu baixinho. E a cada meia dúzia de palavras dele, ela ria mais e mais. As frases dele foram ficando desconexas. O que antes era um leve rubor causado pelo álcool, foi se transformando em asfixia. Ele derrubou a taça, perplexo com o olhar maldoso dela. Desmaiou.

 

Quando recobrou a consciência, estava ajoelhado, e folhas artificiais verdes roçavam seu corpo. Tentou se mexer, mas não conseguiu. Sentiu seus pulsos serem apertados contra o tronco da árvore. A mulher surgiu, enrolando o restante da corda em sua cabeça, prendendo-a para trás. Seus gritos foram abafados pela fita adesiva. A mulher puxou uma cadeira e sentou-se diante dele. Apenas ria. Abriu um pequeno estojo de costura e retirou sua tesoura e pinça. Na hora em que tirou a fita da boca do vizinho, aproveitou suas injúrias para prender-lhe a língua com a pinça.

Ele perdeu a cor.

Com pouca agilidade, a mulher cortou-lhe o músculo com a tesoura, lavando suas mãos com o sangue do rapaz. Ele grunhia, mas não havia mais moradores naquele andar durante o dia: todos trabalhavam. Incomodada com os gritos secos que o homem emitia sem parar, voltou-lhe a fita sobre os lábios vermelhos. Foi até a cozinha e trouxe uma pequena, mas afiada, faca: a mesma que usava para limpar os peixes.

Um pequeno talho. Dois. Três. Quanto mais ele protestava, mais ela lhe levantava a pele com a faca, criando inúmeras escamas dérmicas. Dos pés à cabeça, retalhou-lhe. “Ora, mas você agora está parecendo um dragão! O MEU lindo e vermelho Dragão!” – disse, animada, antes de beijar-lhe a fronte gotejante.

Depois foi tomar banho e saiu para o trabalho. Vestindo seu casaco escarlate.


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