Pular para o conteúdo principal

19/3

Embora tenha sido tão repentino, naquele momento sentiu-se grande. A primeira coisa a ser notada foram os dedos. Unhas quadradas. Em finos dedos. Delicados. E por eles deslizou as próprias mãos. Mesclou os dedos aos dela. Reparou na diferença entre os tamanhos: mulheres sempre foram feitas na medida para serem abraçadas. Nesse caso, sua mão pequena foi rodeada pelos dedos alheios. Formou-se uma concha. Com o polegar-de-violão, alisou o polegar daquela moça. Ato retribuído. Com os demais dedos, aqueles que têm mais agilidade, tocou a costa da mão dela, passando as pontas acostumadas com cordas agora entre as saliências. Ouviu um sorriso. E nesse minuto pensou que realmente não estava enganado: ouvira o sorriso. Antes mesmo de virar o rosto para vê-la, sabia que a mulher sorria. Com os braços entrelaçados, desviou o olhar dos degraus para ela. Aproximou-se. Pôde sentir o calor de seu corpo. Sentiu-se confortado. Encostou a cabeça sobre a fronte dela. Seu perfume... seus castanhos cabelos. Do alto de sua fronte, ele reparou – naquela magnífica cena diagonal que seus olhos proporcionavam – os olhos dela. Seu longos cílios, que ora fechavam ora abriam, mostrando os expressivos frutos de sua alma: seus olhos castanhos. Enquanto a mão-das-unhas-do-violão acariciavam os dedos dela, a mão-da-escala-do-violão foi abusada e subiu pelo rosto dela. Beijou-lhe a fronte. A mão-da-escala permaneceu em sua face, brincando com os contornos daquela deliciosa mulher. A pinça formada pelo polegar e o indicador apertaram a bochecha dela. Depois, o polegar circulou o mesmo local. Em seguida, os demais dedos deslizaram pelo resto do rosto, indo dos olhos para o queixo. Enquanto a respiração dele aumentava, o polegar friccionou a base dos lábios dela. Com mais uma pitada de ousadia, o polegar riscou-lhe aqueles delicados lábios, aquela delicada boca rosada. Um pequeno beijo no canto do olho esquerdo, um outro na fronte, um na bochecha e, uma tentativa, dum beijo nos lábios dela – que fez questão de permanecer imóvel, deixando ele apenas beijar-lhe uma pequena parte da boca. A cena se repetiu. Ou não. A memória é falha agora. Mas, finalmente, com um gostoso sorriso, veio a afirmação do que ele queria: ela. Com isso, a barreira dos lábios foi vencida e se beijaram. Ele pôde sentir o sabor daquela jovem. Mesmo com a boca seca de nervosismo, conseguiu saborear os lábios dela. Beijou. E ela apertou o rosto contra seu peito, enquanto ele a abraçava. Mais um beijo na fronte. Outro na bochecha. Um sorriso. Um outro beijo nos lábios. Ele sentiu, enfim, o sabor do Ópio.


Postagens mais visitadas deste blog

Vermelho Açafrão

  O martelar das horas era inexorável: tudo ali passava no menor tempo possível, como um pássaro pulando pelo chão ao invés de voar. As unhas pretas batiam na caneca de alumínio com café em um ritmo descompassado – um alerta para que ela se mantivesse acordada no marasmo da tarde. A tela do computador irradiava o seu brilho pálido, mesclando-se com sua pele que não via a praia há muito tempo. Havia números ali pululando: uma quase infinita ordem que regia o mundo financeiro. Um dia quiçá ela seria psicóloga, mas, por enquanto, contadora trazia o pagamento no início de cada mês.             A hipnose do meio da tarde sempre vinha. Era inevitável. A mente dela deixava o corpo e seguia outro rumo. Mais bonito? Talvez. Interessante? Certamente. Nesses momentos, as dores do passado cessavam: não havia mais agulhas, cortes, mesas geladas... Tudo ali era acolhedor, e as memórias do passado – as boas memórias – povoavam a paisagem repleta de gatos, doces e salgados. Sua mãe estava ali também

As visitas indesejadas

                 Chá é algo que fui aprendendo a gostar. Tenho os meus preferidos, claro. Não sou muito adepto do chá preto puro, mas gosto das combinações que fazem com ele. Às vezes, me sinto como o capitão Picard. E, às vezes, uso a desculpa do chá para ter uma caneca quente para segurar nos dias mais frios. No verão, chá mate gelado, claro.             O chá tem sido meu companheiro – ou companheira – durante os momentos que recebo visitas. E elas sempre chegam aqui em minha casa. Estou eu ali quieto, fazendo as minhas coisas, e ouço alguém batendo à porta. Eu já sei que, nesse momento, as coisas mudarão. Eu me levanto da cadeira ou do sofá, passo pelo corredor e abro a porta. E ali está a visita. Às vezes ela está sorridente. Em outros momentos, triste. Muitas vezes séria. De vez em quando com raiva. Eu simplesmente a deixo entrar: não tenho outra opção. Não mais... Enquanto ela toma um assento, eu vou para a cozinha e preparo o meu chá.             Eu tento não ser mal educad

UCP

  “Aqui consta que já é a terceira vez que procura a nossa clínica” – os olhos da mulher são brilhantes, lembram dois vagalumes perdidos na beira do rio. “Foram cento e vinte... Não: cento e quarenta anos de atendimento. O seu seguro cobre um invólucro novo, claro, mas podemos aumentar a sua franquia caso deseje manter o mesmo e apenas modificar a UCP. Fica a seu critério. Apenas lembro que suicídios, ou tentativas de suicídio, não são cobertos na franquia: oferecemos tratamento de humor, porém, os custos de reparo serão seus”. Aceno com a cabeça. “O que vai ser? Mudança total ou modificação da UCP?”. Mudança total. Chega dessa merda. “O senhor conhece o procedimento. Teremos de conversar antes de termos sua decisão final”. Não podemos simplesmente pular essa parte? “É impossível. Estou aqui para ajudar...”. Tudo bem, então. “Por favor, sente-se. Isso, fique à vontade. Confortável?”. Aham. “Então... Porque está nos procurando pela terceira vez? Como posso ajudá-lo?”. Você é a terceir