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Dedos

Não pude deixar de reparar naquela cena. Girando uma pequeníssima flor entre os dedos, estava uma mulher com a cabeça abaixada. Levantou os olhos para aquele amarelo que rodopiava, e deixou cair uma gota de água no chão. Ela estava sentada e a lágrima passou-lhe por entre as pernas, fazendo um som curto e opaco no corredor de cor branca. Ela secou os olhos com o peito da mão direita. A janela mais próxima dela não concordava com aquela situação: os raios de sol a atravessavam, esbarrando em seu rosto agora delicado pelo pranto. Ajeitou-se mais para o outro canto do banco. Colocou a florzinha na palma da mão. E hipnotizou-se. Quase quinze minutos passaram sem que ela se movesse novamente. Seus grandes olhos piscaram, para facilitar a queda da dor. Os lábios, antes trêmulos, sorriam pateticamente agora. Um sorriso nervoso, de quem não sabe o quê fazer. Levou a flor aos lábios. Aspirou. “Eu te amo tanto.... por que faz isso comigo?” – resmungou para si mesma. Voltou a rodar a flor entre os dedos, olhando ansiosamente pelo corredor branco.  Uma porta se abriu e lá do fim um vulto lhe chamou. A mulher levantou-se apressadamente e correu para o quarto. O sol já tinha se posto. Pouco tempo ela ficou no quarto. Saiu de lá abraçada com uma senhora. Chorando copiosamente, não tinha sequer forças para caminhar. Não sei de onde vieram mais pessoas para ajudar aquela senhora a erguer a mulher. Quando a levavam embora, passou por mim. Vi quando ela me olhou com seus olhos inchados. Tive vergonha e abaixei minha visão. Depois que se foi, reparei naquela florzinha amarela. Estava toda maltratada. Amassada. Jogada próxima a mim. Olhei-a por um tempo. Tinha intenção de recolhê-la. Mas a visão da flor foi prejudicada por um tecido branco. Uma mulher de branco apressadamente pegou a flor e jogou-a no lixo...


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