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Silenciosa

Tudo começou com uma coceira. Dessas que dão atrás da orelha. Com a ponta do dedo afastou o cabelo e deu fim àquela chateação. Mas aquele sorriso patético continuou em seu rosto. Os músculos da boca foram retraindo, restando um rabisco. Olhava a movimentação na rua. Os lábios voltaram à seriedade. Mas os olhos não: de espantados pela coceira, tornaram-se vermelhos, irritadiços, e já anunciavam o turbilhão silencioso que ocorreria: a piscina das pálpebras não pôde suportar tanta água e, então, uma gota escorreu. Cortou o rosto para despencar no abismo que o fim de seu queixo proporcionava. Não se preocupava com as lágrimas. Não piscava. Olhava o vazio. Os lábios tremiam de quando em quando. Por sorte, ninguém estava por perto. Seria humilhante ouvir novamente: “Por que choras? O que tens?”. Não havia resposta. Ou haveria, se houvesse coragem o bastante para perguntar-se sobre a origem da dor. Mas não. A cabeça não podia raciocinar naquelas horas. Tristeza não é racional; e na alegria raramente pensamos no porquê das lágrimas. A garganta engolia a poeira da alma. Uma pessoa que se sentia abraçada, contra a vontade, pela tristeza. Movimentação escandalosa de sentimentos! Chega. Fica minutos. Horas. Dias. Semanas. Quando menos se percebe: já não se percebe no espelho. Tomou conta. Cegou-lhe. Passará dias inteiros com os olhos turvados. A terrível sensação de não ter nada mesmo morando num palácio de ouro. Existe um fim. Mas novamente a covardia é mais forte. Deseja de todo o coração a... Isso lhe tira as forças. Olha ao redor. Deita-se na cama. Beija sua Tristeza. Chora nos braços de quem ama. Desejando que tudo aquilo fosse o contrário, que as lágrimas fossem de felicidade. O efeito do remédio chega. Terá pesadelos. Dorme...                                        

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