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Rio-grandino

O raio de luz atravessa a extensão toda e morre quase na janela oposta. Ele só vem me visitar ao final da tarde. Aproveito e deixo minhas pernas esticadas em seu caminho: sinto o calor agradável de um cobertor no inverno. Espero não ficar bicolor. Mas, pensando bem, faria pouca diferença – apenas saio de casa usando calça: nunca fui adepto de bermudas para sair.

                Existe uma mosca rondando minha cabeça também. Ela se aproveita de meu momento de estase para pousar em meu joelho ensolarado e desfrutar de seu bronze sobre uma carne. Olho pela janela e vejo de onde ela veio: o vento balança as folhas das bananeiras do outro lado do muro. Cachos de bananas verdes se intercalam nelas, lembrando que ainda não devem ser arrancados. O que eu acho estranho na cena é a falta de cheiro vinda do terreno vizinho. Aqui, sinto apenas cheiro de chuva e areia, nada de bananas. Talvez seja assim mesmo e minha mente de homem urbano me pregue uma peça.

                Eu queria que algum dos gatos que vivem aqui entrasse pulando pela janela novamente, me dando um susto do cão. Já recebi três visitas: uma menininha, e dois menininhos. A gatinha era do tipo “escaminha”, com lindos olhos verdes. Ela entrou, olhou, correu pro quarto e saiu pela outra janela, deixando-me com a sensação de que não sou um humano digno de sua atenção. O segundo gato eu conheço desde que era uma bola de pelos: todo estratigráfico de branco e castanho. Esse me deixa suplicar por atenção e lhe acariciar. Mas ele só veio uma vez... Eu juro que pensei que fôssemos amigos, sabe? Uma pena... Já o terceiro foi o mais folgado. Um gato preto enorme, que entrou pela porta quando estava aberta e ficou desfilando sua impertinência felina até chegar no saco de lixo. Seus olhos amarelos foram embora muito cedo também.

                Frank Herbert deve ter visitado aqui antes de escrever Duna. A areia vai soterrar essa cidade em pouquíssimo tempo se todos forem embora. Cada milímetro tem um grão de areia. O litoral é logo ali. E isso faz com que o vento destrua guarda-chuvas e descabele os que ainda têm o privilégio de ter cabelos. Se andar de chinelo, vai ter um esfoliante natural. Se andar de tênis, vai ter de batê-lo mil vezes contra o piso antes de entrar em casa, pois levará alguns montículos de areia com você. Talvez toda cidade litorânea seja assim, não? (A verdade é que nunca gostei de praia).

                Estou há alguns dias observando uma pequena aranha atrás da porta. Dessas com pernas de modelo e que nunca pisam no chão. Ela fica ali, de boa, balançando em sua teia quando o vento empurra o ar por debaixo da fresta. Ontem eu fiquei alguns minutos vendo-a puxando um tipo de sujeira para a sua rede. Esforçada a menina. E paciente, pois desde que acordei, não a vi se mexer mais. Será que morreu de cansaço? Eu que não vou arriscar chegar perto para ter certeza... Torço apenas para que a mosca que está me rondando acabe presa à teia dela. Sim, esses pensamentos macabros passam por minha cabeça.

                Infelizmente, outros também passam. E esses me incomodam mais. Não sei se sou uma pessoa que nasceu para viajar. Quase sempre fico melancólico. Parado olhando as paredes e pensando na vida. A gente pode ir para qualquer lugar do mundo e sempre teremos de nos carregar junto. Acho isso um inferno. Queria ter uma personalidade para cada viagem, deixando a “base” em casa, longe da mala. Eu não tenho muita necessidade de falar, mas sinto falta de ouvir as pessoas. Viajar é ficar sozinho e condenado ao silêncio. Há coisas boas nisso, claro. Mas em determinados momentos, quando já não estamos muito bem, pode afetar negativamente. E o que sempre passa pela minha cabeça é o velho filme do “Por que estou aqui? Como cheguei até aqui?”. Será que vale a pena tudo isso?  A maldita mosca não me dá sossego: já morri?

                De vez em quando, escuto um “Filhooo” vindo lá do fundo. Sei quem é, e a quem se refere. E essa foi a parte mais legal da viagem. Poder conhecer pessoalmente uma pessoa querida é sempre um momento de alegria e satisfação. Tomei um susto quando a vi porque é muito mais alta do que imaginei. Eu consigo conversar sem ter de sentir minha lombar doendo e isso é ótimo. Gosto desses momentos de quadros de Hogwarts, quando a pintura passa a se mexer e conversar com você. Foi bem essa a sensação: a imagem estática da tela do celular ganhando vida, cores, movimentos e perfumes. O melhor café da cidade (o único que tomei, mas ela não precisa saber). Conversas filosóficas. Gato passando pra lá e pra cá. São momentos bons, daqueles que a gente viveria sempre se pudesse. Como disse, é a parte legal da viagem.

Ao contrário da mosca, que tomou um safanão agora e saiu sentida pela janela enquanto o raio de sol sai empurrado pela noite que bisbilhota por detrás das bananeiras.

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