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Caramelo

Foi novamente aquele sorriso largo e bonito que surgiu nos lábios dela. Sob aplausos de várias pessoas que tinham ido ali simplesmente para ouvi-la falar, ela se despediu e se retirou de cena. Arrumou tudo em sua bolsa e se certificou de que o notebook estava bem protegido. No estacionamento, olhou o espelho retrovisor central e retocou o batom vermelho. Deu uma piscadela para si mesma, girou a chave e deixou os aplausos para trás.

                No caminho, pensou em pudim. Era estranha aquela vontade, mas pudim era tão bom. Pudim lembrava a avó, quando passava domingos inteiros ali com os primos e primas, brincando de qualquer coisa, jogando bola na rua e voltando com arranhões para tomar bronca da mãe. Quase todo domingo havia pudim de leite. E a calda caramelizada era uma das sensações que mais levava para a vida. Tinha certeza de que o primeiro menino que beijou tinha gosto de pudim. Ele era fofinho e o beijo bastante suculento. Era verdade que ele usava aparelho e aquilo, talvez, formasse mais saliva na boca dele, mas o beijo era bom. Era doce. Ele era bom. E doce. Dirigindo pelas ruas congestionadas, parando a cada vinte metros, ela avistou a padaria de sempre. Estacionou e deu mais uma piscadela para o retrovisor. Colocou a bolsa debaixo do braço e sentiu se o notebook estava ali. A porta automática se abriu e ela se sentiu uma rainha entrando em seu palácio. Sentou-se. Com aquele sorriso largo e bonito, agraciou o garçom. Pediu o seu pudim e olhou ao redor. Observou uma mulher ansiosa na mesa próxima. Ela comia croissant e bebia um suco rosado, talvez morango com leite. Sobre a cadeira ao lado, crisântemos. A mulher folheava uma revista de receitas. Conversou com alguma conhecida que havia acabado de chegar e, logo depois, sorriu e saiu apressada, deixando as flores sobre a cadeira. Tentou avisá-la, mas foi em vão: já havia partido. O pudim chegou e foi devorado. Suas bochechas ficaram gordinhas e vermelhas enquanto mastigava o doce. Aquele doce tão maravilhoso. O doce da infância e do primeiro beijo. É bem verdade que ela buscou esse sabor nos demais homens que beijou. Nenhum deles lembrava pudim. Uma pena – ela pensava. Terminou o doce e não quis beber água: iria levar aquele gosto consigo para casa.

                Tirou os sapatos antes de entrar no apartamento. Na pontinha dos pés, correu para o banheiro. Tirou a roupa. Olhou para si mesma. Era uma mulher linda. Perfeita. E ai de quem não achasse isso. Reparou nas marcas em sua pele, em seu rosto: todas elas haviam sido causadas por alguém ou por si mesma. Ela sorriu com seu sorriso largo e bonito. Piscou para o espelho. Deixou a água quente escorrer pelo seu corpo e pensou na apresentação ocorrida mais cedo. Havia pontos a serem melhorados, claro, mas era questão de mera adaptação. Ergueu o rosto de sentiu o calor acariciar o seu rosto. Pensou nele. Pensou naquele dia em que ele a segurou pela face e disse o quanto era incrível. E depois a beijou. E aquele dia foi maravilhoso. Eles viram filmes antigos na TV. Ela dormiu na metade deles, é verdade, mas ele não se importava: a presença dela era suficiente. Ela lembrou daquela vez que ele chorou por estar com receio do futuro, com medo de que as coisas entre eles não caminhassem bem. Ela o tranquilizou, tudo ficaria bem, a vida é assim mesmo, meu bem. Então ela lembrou que já havia estado daquele lado também. Que as incertezas, durante muito tempo, a perseguiram e dominaram. Mas agora ela estava finalmente forte o bastante para seguir adiante.

                Enrolada na toalha, sentou-se em frente à mesinha do quarto e tirou o notebook da bolsa. Sua unha perfeitamente pintada pressionou o botão e logo estava pronto para o uso. Acessou seus e-mails e viu o nome dele no topo. Abriu com o coração acelerado e percebeu que aquele homem era alguém, de fato, diferente. Estava cada um em um lugar do país, a trabalho. No congresso em que ele estava participando já era hora do jantar no hotel. O e-mail continha palavras de amor. Dizia que ele estava se sentindo bem, que coisas boas estavam ocorrendo e que logo traria todos os detalhes pra casa. Ela sentia orgulho da força dele. E sabia que iriam conquistar o mundo ainda. Mas o que a fez dar aquele sorriso largo e bonito, levar a mão ao peito e marejar os olhos, foi a foto anexada. Era do bufê de doces. “Linda, sempre lembro de você. Olhe que pudim maravilhoso eles têm aqui!”.

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