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Floresta

Ainda que a escuridão estivesse tomando conta do quarto todo, pôde ver as marcas dos olhos inchados dela. Ela chorava silenciosamente, sempre. Talvez fosse uma mistura de vergonha por sempre ter de carregar uma imagem forte, de ser forte para o mundo, mas que às vezes não conseguia encontrar a si mesma quando se olhava no espelho e percebia que, apesar das marcas que carregava no rosto, ainda assim, existia amor dentro de si. Chorar não é vergonha – ela sabia disso. E com o tempo foi aprendendo que suas lágrimas, cada uma delas, tinha uma razão de existir. Sua vida nunca fora fácil, e agora, no sono pós-lágrimas, ela estava em outro mundo: um diferente do seu, um em que a dor não conseguia lhe alcançar. Um em que a dor não poderia lhe fazer mal.

                As pessoas são nada mais do que células amontoadas. Se pudéssemos dar um super zoom, veríamos que existem espaçamentos dentro de nós. Há uma força da natureza que une tudo e nos torna humanos, seres autopoiéticos. Mas isso não nos impede de ir deixando pedaços pelo caminho, e encontrando outros para reposição. Ela não perdeu pedaços: eles foram arrancados dela. A vida havia sido difícil e agora, adulta, sabia que seu passado a tornara mais forte. Houve um tempo, quando bem jovem, em que os problemas em casa foram sendo substituídos por substâncias que criavam realidades paralelas. Ali, nesse mundo de libertação, ela foi amarrada, e assim pôde passar por fases complicadas. Não há arrependimento, enquanto dorme, de coisas em seu passado: ela fez o que tinha de fazer, e hoje encara os momentos obscuros com consciência de que carrega a lanterna que não a fará voltar pelo mesmo caminho. Ela teve de amadurecer rápido. Cedo. Não apenas por ser mulher. Mas. Também. Pelas. Muitas. Coisas. Que. Ocorreram. Das. Quais. A. Lembrança. Sempre. Irá. Existir.

                Seja a fome, seja o jeito diferente dos pais demonstrarem amor: ela teve de aprender, logo, que na vida seria somente ela contra tudo. As mudanças de humor eram descontadas nos objetos, mas isso não a tornada irascível: tinha pela consciência de que passava por um período ruim, e que esse período também passaria. Ela se olhava no espelho após esses momentos e pensava como era bonita. Sabia de seus problemas internos, seus demônios, mas isso não a impedia de ver a beleza em si mesma e nos outros. E ela também filosofava sobre como existem pessoas ruins no mundo. Ela tinha sua parcela de culpa, é verdade. Todos temos. Ninguém é inocente. Mas ser abusada psicologicamente mexe com qualquer um. Ser abusada fisicamente mexe com qualquer um. E isso quebra a confiança de qualquer um. Em qualquer um.

                Existe uma música que fala sobre uma mulher que botou fogo em uma floresta que era todo o seu amor. Às vezes, queimadas controladas são necessárias para que nasça algo novo. E foi o que ela fez.

                Ainda que a escuridão estivesse tomando conta do quarto todo, pôde ver as marcas dos olhos inchados dela. Isso já foi dito. É apenas uma repetição. As imagens ficam confusas, às vezes. Mas pôde ver os traços dela. E pôde perceber que ela já não poderia mais ser amada. Não por ele. Ela ainda estava esperando o terreno queimado da floresta se curar para que algo pudesse nascer novamente. E, vendo o rosto delicado dela, ele compreendeu isso. Sua floresta crescera desordenadamente, e agora todas as árvores de amor sufocavam uma dor em seu peito. Ele imaginou que conseguiria fazer um transplante de árvores. Pensou que desafogaria o seu terreno compartilhando suas árvores. Era o que ele mais queria. Ela, agora deitada e dormindo, era tão linda, tão inteligente, tão forte. Ele desejou muito que tudo tivesse dado certo, mas não se pode plantar em terrenos que ainda precisam se curar. Ele sabe que ela irá se curar um dia. E sabe que as árvores que nascerem não serão mais as que ele tinha para oferecer. Mas tudo bem. Tudo bem. As coisas seguiriam quando ela acordasse. Algumas conversas mudariam de tom. O que antes foi algum tipo de intimidade, agora seria proibido. As memórias ficariam por um tempo, até que conseguissem pensar nelas sem sentir dor. Sempre foi assim. Talvez sempre seja. Mas tentar é fundamental.

                Ele a observa dormindo e os primeiros raios de sol entram pela janela.

                Ela abre os olhos e ele novamente observa a floresta que irá se curar.

                Ele desvia o olhar. Obrigado.


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