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A Casa dos Gatos

Sim. Era uma manhã tranquila. O sol estava alaranjado. A brisa, fresca. Havia chovido, deixando o seu aroma típico no ar. Mas o jardim daquela casa permanecia com um perfume diferente do vindo da rua: cheiro de terra molhada. Belo jardim. Pequeno. Com flores diversas. Muito colorido. A natureza escondia a fachada da casa. Pequena. Com acesso à sala descendo uma escadinha saída do jardim. Vamos descê-la para encontrar a dona da velha casa.

Não mais jovem do que a sua casa, aquela mulher de cabelos grisalhos sentava-se na poltrona de couro marrom. Ouça! A melodia rasgada que vem da vitrola é um tango. Uma música triste que alegrava a ouvinte. Trazia sua mocidade à mente. Então ela mexia nos anéis que adornavam suas calejadas mãos. Olhava para o retrato do marido falecido sobre a televisão. Não chorava. Sentia-se confortada com a possibilidade de um dia encontrá-lo no Além. Tricotava. As mãos, apesar de idosas, ainda eram ágeis. E faziam bem feito o labirinto de nós. Reclinava-se na poltrona e tricotava a manhã inteira. Ao seu lado ficava a mesinha que servia de cama para os óculos e a xícara de chá. Dizia para si mesma que possuía uma vida bem calma.

 Junto a ela, moravam os seus gatos. De muitas raças. De muitas cores. De muitos tamanhos. De muitos apetites. De muitos miaus. De muitos dengos. De muitos olhares. De muitas personalidades. Ah, se você visse o Pingo! Pingo foi o nome que dei para o menor dos gatos: um filhote todo branquinho. Ele tem o dom de abrandar as angústias dos mais depressivos peitos humanos. É encantador e o xodó da velha. Vive com o felino em seu colo, distribuindo carinho. Dorme na mesma cama de sua dona. Não conte para ninguém, mas os outros gatos morrem de ciúmes do Pingo. Tanto é verdade que, por Deus!, certo dia expulsaram o Pingo de casa. Imagine a tristeza do nosso gatinho em ver-se jogado ao relento, pobre e abandonado. Vagando com lágrimas, Pingo, na primeira noite, conseguiu esconder-se no quintal de uma casa a poucas quadras dali. Pensava: “O que fiz de errado? Eu só quis ser amado, e amar! Será que é errado a gente amar?” Eu escreveria que Pingo virou um andarilho, que começou a fumar e a beber todas, mas, você há de concordar comigo, como haveria história se meu gato morresse de cirrose? Por isso, vou apenas redigir o seguinte: Pingo ficou traumatizado com a sua expulsão e, simplesmente, desistiu de viver.

 Nunca rodou o mundo. Ele preferia ficar no mesmo bairro em que fora adotado. Todos os dias, rondava a casa de sua antiga dona na esperança de encontrá-la no portão. Mas só aumentou a solidão... Ela nunca aparecia na rua e, para piorar, os gatos mais velhos não o deixavam atravessar as grades da casa. Eram maus. E riam do coitado deprimido: “Rá rá rá! O Pingo jamais voltará a ser quem era!” Nosso gatinho chorava. Copiosamente. Sentia-se rejeitado. Frustrado. Não mais sorria ou ria. Perdeu a fome. Dia após dia tinha de procurar novo quintal para passar as frias madrugadas. Ronronava dolorosamente.

 A dor aumentou em seu coração com o passar do tempo. “Eu só amei... E agora sofro por isso!” Não conseguia se conformar. Ele não merecia isso. Digo que o gato merecedor de tal tormento era o Aniquilador (um gato grande e feio) pois ele era realmente ruim e vivia magoando todos. Mas nem sempre Deus é justo para com os que amam. Pingo começou a exalar o fio de sua vida. Já não se preocupava mais em procurar um abrigo todas as noites. A chuva o deixava doente. O calor o matava de sede. Porém, estava tão fraquinho que definhou aos poucos. Perdera as esperanças de voltar para sua casa. Em todos os lugares era vítima de preconceito e incompreensão pelas pessoas e pelos outros animais.

Numa bela madrugada, quando até mesmo a coruja dorme, surgiu na rua um vulto. Um vulto de menina. Menina bonita, afirmo-lhe. Pegou o Pingo no colo e levou-o para seu lar. Lá ele foi muito bem tratado.

E quanto aos demais gatos da casa daquela velha? Bom, se dizem por aí que os gatos têm sete vidas, Pingo provou que estes só possuíam uma...

O bichano se transformou num belo e forte espécime. Com todo o amor e carinho que recebia da bondosa menina, sua auto-estima voltou. Tomava de cinco a seis pratos de leite por dia! Pulava degrau por degrau da escadaria recém erigida. Suas patinhas, antes franzinas, agora eram musculosas. Quando, passados quatro meses, estava ciente de sua condição, Pingo voltou às ruas. Por vingança.

Sua velha casa estava lá... caindo aos pedaços como sempre. Seus velhos inimigos estavam lá... rindo como sempre. Aquela situação deixou Pingo com uma grande fúria em seu coração. Esperou anoitecer, e, quando todos dormiam, atravessou o portão. O gato ia à forra! Não lhe contarei aqui os detalhes daquela sinistra noite. Pra que perder tempo com sangue e vísceras? Vamos pular essa parte e avançar o Tempo: depois de dar um fim nos corpos dos gatos, Pingo entrou pela janelinha do banheiro (que sempre ficava aberta) e foi à procura de sua antiga dona. A velha jazia na poltrona da sala, num sono profundo. O nosso herói  aconchegou-se em seu colo e teve os mais belos sonhos de sua vida. Viveu ainda durante muito tempo com a velha, até que a morte veio lhe buscar, deixando-o sozinho novamente.

E quanto à menina bela e faceira? É uma pergunta interessante a que você me faz. Bom, ela chorou muito quando perdeu seu gatinho. Pensou que não poderia mais viver sem ele. O Amor sempre foi ingrato e feriu os que nele mais acreditam. Com a menina não havia o porquê de ser diferente, não é? Ela sofreu muito. Mas um outro amor a curou. Ela cresceu, e agora os gatos que procurava nas ruas não eram mais os felinos...


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