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Quadro

Branco. Imensidão branca. Muito tempo corria assim: no branco. Até que aquele quadro alvo tivesse algo para manchá-lo. Então notava as gotas. De gesso. No teto. Branco. Um teto que parecia eternamente disposto a reter suas lágrimas. Parecia um bolo coberto de suspiros, mas de cabeça para baixo. Deliciava-se com aquela cobertura. Vez e outra, a imagem sumia repentinamente: uma escuridão surgia do nada, cegando tudo, mas logo desaparecia. Mirava o branco. Naquela imensidão vinham imagens. Seus pensamentos espirrados na tela de forma desordenada. Vultos. Rostos. Sorrisos. Coloridos. Ela... Ela sorria. Aquele velho sorriso encantador. Os ombros nus. Amada. Ela lhe sorria e esticava os braços. Então, naquela pintura, viam-se as pontas de dedos brincando com o ar, como se quisessem agarrar as mãos vindas do teto. Um braço esticado. “Toca! Por favor!” Mas Ela era apenas feita de tinta de pensamento... sem carne. Quando se dava conta disso, aquela tela branca manchada ia escurecendo aos poucos, com a forma da mão lhe tapando o rosto. “Como dói!” E o peito arfava rapidamente. Um pranto puro. De criança. Dos que amam. Soluços. A vergonha de se chorar. A sorte de se estar sozinho. Aquele Deus maldito que ria. Aquela vida mais miserável do que a dos outros. “Por que eu?” Seu sofrimento único. O mundo continuava. O Sol surgia. A Lua ainda lhe trazia o sabor dos beijos. Quando voltava a ter a visão do teto, ele já não estava mais parado. Movimentava-se em ondas. Os olhos ardiam. Quando aquela tela branca tornava-se mais nítida, é porque sentia a morna lágrima escorregando pela colina de seu rosto. Mas logo os olhos se enchiam novamente. Branco. Imensidão branca... 

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