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B.p.m.

No dia 4 de julho daquele ano o Sr. ... recebeu a notícia da boca de seu médico de que alguma coisa muito errada estava acontecendo com seu coração. O Sr. ... só entendeu as palavras do doutor até aí: tudo o mais, todas as explicações, os pormenores de sua doença pareceram um sonho distante: ele apenas compreendeu que seu coração recebia mais descargas de adrenalina do que o normal e que isso o estava matando. Nada podia ser feito, ele leu nos lábios do médico. Ele teria mais um ou dois meses de vida. E o que se segue é o que aconteceu desde o dia da triste notícia até a morte do Sr. ..., no dia 28 de agosto (22 °C, nublado, 75 Km de congestionamento na cidade).

 

4 de julho

O Sr. ... saiu do hospital e se sentou no banco de cimento que havia em frente ao prédio. Folheou o livro que havia trazido para ler na sala de espera, deixando as páginas amareladas e cheias de ácaros beijarem seus dedos. Espirrou. Deixou o livro sobre o banco, sem perceber, quando se levantou e seguiu para onde suas pernas o levavam. Caminhou meio sem rumo, embora o seu coração marcado soubesse muito bem para qual lugar se dirigiam.

Parou numa cafeteria não muito famosa: trazia umas moedas no bolso e sua conta bancária não lhe permitia gastar muito, mesmo com a Ceifadora batendo à porta. Depositou três moedas grandes na mão áspera da atendente e se sentou à mesa que dava para a rua movimentada. Seu café chegou e ele olhou pra os saquinhos de açúcar e de adoçante. Para o inferno, vou morrer mesmo – pensou o Sr. ..., escolhendo o açúcar. O café havia sido proibido pelo médico meses antes, mas agora não havia mais sentido. Levou a bebida aos lábios e queimou a ponta da língua. Aquilo o incomodou. Ele sabia que essa sensação da queimadura iria durar mais um dia ou dois, ou três. Mesmo com o paladar prejudicado, Sr. ... degustou o sabor amargo aos poucos, relembrando como era bom tomar uma grande xícara de café preto.

Já era fim de tarde e todos começavam a voltar para casa, em ônibus lotados, em metrôs ensardinhados. Não se sentia tentado a voltar agora. Iria esperar mais um pouco, fazer hora, enganar Cronos. Seus pés o levavam pela rua, passando pelas entradas do metrô. Do outro lado da rua, prestes a descer a escadaria, o Sr. ... a viu. Ela era uma mulher jeitosa e delicada. Linda. Sorriso fácil. Ela havia enfeitiçado o Sr. ... como as bruxas fizeram em “Macbeth”. Era culpada por uma parcela substancial que Sr. ... dedicava aos pensamentos. Em resumo, o Sr. ... era apaixonado por ela, ele a amava. Naquele fim de tarde ele a observou descendo os degraus e suspirou, cheio de mágoa consigo mesmo.

 

19 de julho

O Sr. ... acordou tarde. Já passara do meio-dia uns trinta e quatro minutos e alguns segundos rápidos demais para nos atermos. Foi para fora de casa pegar o jornal e voltou. Na seção de classificados (ou alguma parecida, não se lembrava) viu uma pequena caixa de texto com os dizeres “Abandono de emprego. Procura-se Sr. ..., que há 15 dias não aparece em seu local de trabalho...” blá, blá, blá. Deu de ombros e jogou o jornal no vão que havia entre o sofá e a parede da janela. Bebeu um gole do café frio de ontem e teve um breve gosto do que seria a morte. Pegou uma bala e ligou a TV. Nada prestava, mas havia o comercial de um novo filme que estreara semana retrasada e ainda estava em cartaz. Falavam que era um drama bom, dos que se assiste com lenços. Na verdade, o Sr. ... não estava com ânimo para ver filmes assim: ele tinha certeza de que o mocinho – ou a mocinha – morreria no final. Tentou, então, arriscar a sorte. Acessou a agenda de seu celular e desceu a lista até chegar ao nome dela, seu amor platônico. Ligar ou enviar mensagem de texto? Uma dúvida cruel para alguém que, como ele, não tinha muito jeito com mulheres, era tímido, não falava de coisas muito diferentes. Talvez sua voz denunciasse sua excitação em ouvi-la falando. Não, melhor não – ele disse para a moça que vendia um processador de alimentos com dezenas de acessórios e peças que se perderiam com menos de um mês de uso. Resolveu mandar a mensagem. Havia escrito uma mensagem bem formal, longa, quando precisou colocar o ponto final. Infelizmente, seu modelo de aparelho era antigo, desses que é necessário apertar a mesma tecla várias vezes para mudar o caractere. O Sr. ... apertou a tecla errada e, ao invés do ponto final, voltou para o menu. Xingou. Então retomou a escrita, mas dessa vez bem mais direta e curta. Enviar. Enviando... Mensagem enviada. Durante quarenta e oito minutos ele ficou sentado no sofá com o celular em mãos. Via as mensagens antigas dela, que ele nunca apagava. Jogava o impossível sudoku: perdeu três vezes seguidas, ganhou uma. A tela do celular se acendeu e apareceu “1 nova mensagem”. Ela respondeu que adoraria, que seria legal ir ao cinema com ele e que podiam se encontrar em frente ao shopping mais à noite.

O Sr. ... tomava seus remédios. Mesmo que agora fossem em vão. Mas eles o ajudavam a não cair pela rua, nem ter falta de ar. Ele havia tomado o comprimido antes de sair de casa, mas sentiu-se um pouco estranho dentro da sala de cinema, com ela a seu lado. Ela repousava seu braço no encosto largo da poltrona, enquanto o outro descansava em seu ventre. Seus olhos recebiam o reflexo da tela e ela ficava ainda mais linda. O Sr. ... não conseguia prestar atenção no filme, estava ansioso. Uma ansiedade de carência: tinha vontade de passar o braço ao redor dos ombros dela e puxá-la para perto de si, sentindo seu corpo feminino, delicado e quentinho roçando sua pele. Mas não o fez. Estava inseguro. Não sabia se ela gostava dele, ou se saíra com ele apenas porque o achava uma boa companhia. O Sr. ... chegaria em casa aquela noite e bateria os punhos contra a parede do quarto, lamentando sua covardia.

 

6 de agosto

As tosses e a fadiga do Sr. ... pioraram bastante. Às vezes, era obrigado a se deitar rapidamente ou desmaiaria. O médico receitara algumas coisas para aliviar esses desconfortos, mas já não faziam mais efeito: o Sr. ... sentia que estava morrendo.

 

13 de agosto

Aquela sexta-feira foi a última vez que o Sr. ... saiu de casa. Andando mais devagar do que de costume, sentou-se na cafeteria e pediu um café preto.

Passou o fim de tarde e o início de noite com alguns calafrios: o tempo estava mudando. Observou o sol se pôr entre as árvores do parque da cidade. Ele sorriu. Um sorriso de estar diante da vida e, ao mesmo tempo, despedir-se dela. Um risco transparente rasgou seu rosto e pingou sobre a mão apoiada no joelho. Ele a observou. Mexeu os dedos e deixou mais uma gota cair quando se deu conta, mais uma vez, de que não havia outra mão segurando a sua. Fechou os olhos e engoliu a saliva que quase o afogava.

Quando viu que todas as pessoas caminhavam para suas casas, ele soube o que fazer.

Estava esperando há quatro minutos em frente ao lugar de trabalho dela quando a mulher saiu. Ela se mostrou surpresa, mas feliz. Ele disse que estava por ali e que resolveu passar para dar um oi. Ela agradeceu e perguntou se ele queria beber alguma coisa. Foram à cafeteria, que ainda estava aberta até àquela hora, e pediram algo quente. Ele riu sinceramente quando viu o bigode de leite que ela ganhara ao bebericar. Ela ficou vermelha e aquilo a deixava ainda mais (se é que isso era possível) linda. Estonteante. Conversaram por meia hora e seguiram para o metrô. Os vagões já estavam mais vazios, embora ainda tivessem permanecido em pé. Ela contava algo do cotidiano e ele apenas a observava, tentando desesperadamente guardar aquele momento na memória. A estação dele era um pouco antes da dela, então se preparou para descer. Eles se abraçaram para se despedir. O mundo parou. Ele sentiu uma nova descarga de adrenalina percorrendo seu coração. Cerrou os olhos e a abraçou mais forte. Quando se afastaram e a porta estava prestes a abrir, ele colocou a mão atrás da nuca dela e a puxou para si, sentindo seus lábios vermelhos aromatizados soprando vida para dentro de seu corpo. A porta se abriu. Eles se afastaram e ela o olhava com um ar confuso. “Eu só precisava saber como era...” – ele disse antes de sair.

 

28 de agosto

O Sr. ... não pôde resistir ao próprio coração e morreu naquela madrugada. Poucas pessoas apareceram em seu funeral à noite, incluindo ela, mais alguns amigos do antigo trabalho e o irmão mais velho dele, que vivia na cidade vizinha.

Ela estava com os olhos úmidos. Só havia visto seu cadáver rapidamente: ele parecia tranqüilo. Ela estava do lado de fora quando o irmão do Sr. ... apareceu. Ele olhou para uns papéis que trazia em mãos e depois olhou bem para o rosto dela, analisando-a.

“Encontrei isso na cabeceira da cama dele. Bem, acho que você pode ficar com elas. Você deve ser alguém muito especial: as únicas fotos que tinha na casa eram essas e uma do casamento de nossos pais. Obrigado por ter vindo”. E ele voltou para dentro.

Ela pegou as fotos e observou. Uma delas era bem antiga, do tempo de faculdade, numa festa. A outra foi num congresso, todos bem vestidos. A última parecia ter sido tirada com um celular de baixa qualidade, estava um pouco desfocada e granulada. Era ela descendo a estação de metrô. No verso estava anotado apressadamente com lápis: “4 de julho. Amor”.


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