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Týr

“Onde ela está?”

            O homem tropeça na cadeira da cozinha, derrubando o copo azul. Seu mundo gira e seu hálito é sentido de longe pela esposa. “Dormindo. Ela já foi deitar” – a mulher diz. Ele soca a porta do quarto. O menino mais novo acorda e seu choro é ouvido ao fundo.  As duas com mais idade, que dormem na mesma cama de colchão fino e rasgado prendem a respiração, abraçadas. Na parte de cima do beliche ela, o objetivo, abre os olhos. Não tem medo. O álcool a enjoa. Olha bem dentro dos olhos sem vida do velho. “Onde você estava?” – puxa o cabelo dela, obrigando-a a se sentar. “Ela chegou cedo. Veio direto do trabalho” – diz a mãe, segurando a mão do marido. Ele xinga e diz mais algumas coisas sem sentido antes de voltar para a sala e desabar sobre o sofá, roncando.

            A filha se deita e fecha os olhos tentando deixar o acontecimento perdido. Perde-se também o orgulho próprio. Sente-se humilhada. É embalada pelos suspiros chorosos vindos da parte inferior.

 

***

            Estávamos sentados no sofá surrado coberto pela capa alaranjada. Eu lambia os restos de açúcar e canela da ponta dos dedos, buscando outro bolinho. Era inverno e o tempo estava nublado, trazendo penumbra para a sala. Nessas ocasiões, não ligávamos o televisor, apenas escutávamos as vozes dos visitantes. E eu sempre escutei mais do que falei: faltava-me vontade, assunto ou – confesso – interessavam-me mais os bolinhos e o chá. Minha vó sentava-se no sofá ao lado da parede da cozinha: ali era seu lugar e jamais a vi em outro. Ela apoiava as mãos sobre os joelhos protegidos pela longa saia e olhava com amor seus filhos, netos, genros e noras. Prosas deslizavam pelo aroma do mate adocicado, trazendo-me aquela sensação de desligamento mental, reconfortando-me em minha jaqueta, lutando contra o sono da tarde. Em dado momento a conversa desviou para um assunto deveras antigo: raramente minha avó falava de sua infância, mas naquele dia eu ouvi sobre outra irmã sua, que eu jamais conheci.

            Sua família morava no interior do Estado. Ela tinha dois anos quando a garotinha nasceu. Era o ano da Revolução de 1930, mas isso não chegou a afeta-los. Viviam com as dificuldades que toda família humilde suportava: muitos filhos, pouco dinheiro. O problema sério aconteceu dois anos depois. Durante a Revolução Constitucionalista o estado foi afetado seriamente. Os alimentos escassearam e pela primeira vez na vida ela passou fome. A situação perdurou um tempo. Faltava emprego e seu pai conseguia alguns trocados em serviços temporários. Não me recordo quando foi ou que idade a irmã de minha vó tinha, mas a garota sempre desejava pão. Um simples, francês.  Contudo, a cidade enfrentava problemas com abastecimento, faltando ingredientes básicos como a farinha. A saúde da menina foi piorando, e ela nunca deixava de desejar o seu pão. Mas não havia, não se encontrava em lugar algum (ou talvez faltasse dinheiro). Meses depois, a irmã mais nova de minha avó faleceu. Ela morreu, minha avó conta, porque desejou tanto uma coisa que não acabou tendo.

            Meu avô ouvia, no quarto em frente, sua esposa contar a história. Incompleto.

 

***

“Se ele não operar imediatamente, em dois dias morrerá”. A infecção que começara na perna ia se alastrando pelo corpo. Nenhum dos irmãos desejava assinar o termo que permitia a amputação. Mas ela assinou. Não havia opção. Não queria que seu pai morresse. Reuniu todos e disse que assinaria, que seria responsabilidade dela o que acontecesse.

O velho chorou na cama do hospital quando ela foi contar que assinara. “Não quero que tirem nada de mim” – agarrou a mão dela. Ela retribuiu com um aperto e dor no coração. “Não quero que você morra, pai. Será feito aquilo que for necessário”. Saiu, deixando o homem chorando. Talvez o vendo chorar pela primeira vez na vida.

 

Não foram poucas as vezes em que ele maldisse a operação e o fato de ter ficado aleijado. Talvez culpasse a filha, mas jamais disse. Foram meses de recuperação. Porém, o cigarro e a bebida já haviam estrago seu corpo demais: poucos anos foram necessários para que outra ferida aparecesse na perna restante.

Dessa vez ele não resistiu na mesa de operação.

 

***

Vejo minha mãe chorando sobre o caixão de seu pai. Ela o amava. Mesmo com todas as humilhações e sofrimento que teve na juventude por causa dele. Ela passa a mão sobre sua testa e o beija.

 

***

Os corredores são brancos e vi marcas escuras de sangue no chão. Na sala de atendimento há macas, camas e pacientes. Entre as camisolas brancas enxergo minha mãe. Ela me vê e chora. “Ele disse que vai ter de amputar”. Meu coração para, mas só por um segundo. Limpo a garganta e tento mostrar a ela as coisas positivas que podem vir da operação. Seus olhos estão cheios de pavor. “Naquela sala tem uma mulher com as mesmas feridas do pai. O cheiro de carne podre...”. Não é o seu caso, digo. Meu tempo acaba e saio da visita. Beijo sua testa e sinto seu suor salgado e frio.

 

Curativos e cortes abertos. Dias difíceis para estômagos fortes. A cada curativo ela me agradece. Fico nervoso com isso, mas nada digo: ela jamais vai precisar me agradecer por nada. Levo meses para me acostumar a vê-la sem uma parte.

De um modo ou de outro, todos acabamos deixando pedaços pelo caminho. É o único jeito de sobreviver. Penso isso antes de deitar a cabeça no travesseiro e desviar meus pensamentos.


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