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A hulder

Inspirado em “O Monarca do Vale”, de Neil Gaiman.

 

 

 

Foi real.

            Creiam-me quando digo. Realmente aconteceu. Há uns anos, quando a juventude ainda me trazia bons frutos ao invés de quilos e meus cabelos não davam sinais de perderem o tom. A casa de meus avós era bem distante da cidade. Bem mais do que eu gostaria que fosse: levávamos três horas para chegar ao ponto mais longe de uma cidadezinha minúscula, cravada em um vale. Não sei lhes dizer qual era a fonte econômica do local, embora, certamente, fosse algo relacionado com o meio rural.

            A casa era de uma alvenaria já decadente, com pedaços de tijolos aparecendo na fachada e uma varanda pequena, mas aconchegante, onde as tardes se perdiam com as histórias de meu avô, um homem azeitonado, de voz retumbante e coxo. Acidente com um dos cavalos da fazenda, disseram-me: vovô era muito novo e mal sabia colocar as ferraduras nos animais; justamente na segunda tentativa é que a desgraça ocorreu: a pata do cavalo escapou, batendo em sua canela, deixando-o aleijado para sempre. “Mas” – meu avô repetia – “isso se tornou meu charme. Sua avó ficou apaixonada pelo único menino que não conseguia dançar no baile da cidade”. E deve ter ficado mesmo. Em toda a existência de meus avós, só ouvi história de amor. Ao envelhecer, tive consciência de que todos os casais brigam, discutem – e que isso é inevitável –, porém, naquela época, eles eram o símbolo de segurança para mim. Minha avó era uma mulher baixa, de cabelos ondulados e um pouco curvada. Suas mãos lembravam-me pele de frango cru e seu hálito era possuidor de um resquício eterno de café. Ao dizer que se amavam, não minto: vovô morreu quatro meses após o falecimento de sua esposa. Foram os meses mais tristes que já vi alguém viver. Sua vida acabou quando fecharam o caixão da vovó. Viveu apático. E as corriqueiras broncas que tanto me dava foram esquecidas. Eu podia fazer o que quisesse pela fazenda que ele não se importava: passava os dias sentado na varanda, olhando o horizonte, com os olhos chorosos e repetindo baixinho o nome da mulher que lhe dera filhos um dia. Minha mãe uma vez me disse: “A mulher consegue seguir com a vida após a morte do marido; o contrário não acontece”. Ela também é sábia. Meu avô não mais ralhava comigo quando me aproximava do bosque. Antes, ai de mim! Ele me dava o sermão de que havia coisas do Diabo por ali, que homens entraram no bosque e não voltaram mais. Quando criança, confesso que tinha certo medo das histórias de vovô. Mas isso quando era criança... Já estava com 16 anos no período entre a morte de meus avós. E foi com 16 anos que aquilo ocorreu...

 

            O bolo de fubá estava ainda quente e minha mãe derramava o café-com-leite na caneca esmaltada, ambos sobre a toalha listrada da mesa da cozinha. Sorriu pra mim e me sentei. Adoro bolo fumegante, e me servi de uma fatia generosa, dando goles no café para ajudar a descer. Não havia muito o que fazer. Terminei e fui me aventurar: coisa que fazia há anos; já conhecia cada centímetro daquela terra. Passei pela varanda e vi o copo com bebida que minha mãe havia deixado ao lado da cadeira de vovô. Ele não o tocara. Nem ao bolo. Apenas permanecia em seu estado calado e contemplativo. Gosto de pensar que ele tinha fé de que uma hora vovó iria contornar o estábulo, como fazia todos os domingos após a missa. Cumprimentei-o e saí. Primeiro fui ao laguinho próximo ao laranjal. Ali me esperava a vara de pescar desde a noite passada. Espantei os pássaros que bicavam as minhocas que eu havia deixado numa lata e peguei uma. Relaxei e pesquei uns peixes minúsculos; tilápias, eu acho. Perdi metade da manhã naquela brincadeira quando me dei conta de que tinha de alimentar as galinhas. Em troca da ração, tomei uns ovos para levar para casa. A hora do almoço era iminente: tomei um banho e saboreei, junto a meu pai que voltara da cidadela, omeletes.

            À tarde, retornei aos meus afazeres exploratórios. Eu sabia montar, mesmo tomando alguns tombos ainda. Como não havia ninguém para brigar comigo, fui ao estábulo e levei Nilzito para uma caminhada. Era magro e parecia ter a cara mais comprida do que os demais cavalos, mas era um bom animal. Paciente e nada selvagem. Contornei o perímetro da fazenda, observando o vale que se estendia pelo lado oeste. Por fim, cheguei bosque que existia no nordeste do terreno de meus avós. Parei e desci. Será que realmente aquele lugar tranqüilo e perfumado era tão ruim assim? O Diabo habitaria um local tão bonito? Paguei para ver. Amarrei Nilzito numa árvore e adentrei o mato. Nada de especial por ali. Um monte de árvores e plantas rasteiras. Algumas aranhas gigantes aqui e acolá. Ok, eu digo: barulhos estranhos emanam do bosque. Mas eu era um garoto corajoso! E cada vez mais dei meus passos pelo bosque. Porém, se eu era corajoso, era extremamente burro também: esqueci de marcar meu caminho. Após uma hora de caminhada, percebi que estava perdido. Nem sinal da claridade que tinha de existir ao olhar para trás. Tentei me acalmar. Já ouvira casos de crianças e adolescentes que se perderam na mata e que foram encontrados depois. Em algum documentário, eu vi que é sempre bom seguir o curso da água, que aquilo me levaria a algum canto. Pois bem, apurei meus ouvidos em busca de som molhado. Nada surgiu. Ao menos, até o barulho das gotas de chuva chegarem... Lá estava eu: perdido e desabrigado. Sem contar o receio de ser atingido por um raio, afinal, ali só havia árvores!

            Tirei a camiseta e cobri minha cabeça, sentando-me num velho tronco de madeira que jazia sossegado sobre o solo. Mais tempo passou. O sol começava a ser puxado pelo céu, trazendo escuridão ao bosque. Estava com frio e tremia. Esperava que meus pais já tivessem sentido minha falta, que avisassem a polícia. Quiçá o fizeram mesmo, mas, nenhuma alma aparecera gritando meu nome. Desesperei-me. Estando sozinho, não tive vergonha e desatei a chorar. Meus soluços misturados aos trovões deviam parecer cena de Rei Lear. Permaneci nesse estado até que um trovão mais próximo me fez pular de susto. Para minha surpresa, naquele instante notei uma luz lá no fundo da escuridão do bosque. Ela crescia, aproximando-se. Estático, vi com esses olhos – hoje míopes – que a terra há de comer uma pessoa chegar. Não um ser qualquer, uma pessoa, digamos, comum. Vi, no entanto, uma garota que aparentava ter minha idade, uma garota que brilhava! Sua luz me deixou observar seus cabelos loiros, quase brancos, e sua face alva, de contorno delicado. Era a menina, a garota, enfim, a mulher mais linda que já vira! Vestia um casacão que ia até os pés. Abriu os lábios rosados.

“Uru trakaia reimi ûte solainhe?”

            Não se preocupem, também não compreendi nada do que me disse. Mas foi isso o que entendi na hora. Devo ter feito uma expressão muito bizarra, pois a garota riu encantadoramente e, de súbito, tirou seu casaco. Estava nua. Eu rapidamente me virei, embora desejasse vê-la. “Moça, o que é isso? Por favor, ponha a roupa! Está frio. E chovendo e...” – não tive tempo de completar, o casaco foi posto em minhas costas. Ela não dava sinais de se importar com aquilo. Foi a primeira vez que vi uma menina nua e fiquei muito encabulado. Ela me apontou uma direção e, com a mão em meu ombro, guiou-me. Eu falava com ela, olhando para o chão. E ela falava comigo... eu sabia que ela sorria! Por Deus, que sorriso ela tinha! Seu idioma era estranho, parecia que cantava ao invés de falar e era um tanto seco, com muitos erres. Logo estávamos de volta à entrada do bosque. Nilzito me esperava, encharcado e raivoso. Ainda olhando para o nada, agradeci e devolvi o casaco. A menina o vestiu e me olhou com carinho, passando a mão em meus cabelos, como se eu tivesse aprontado alguma coisa. Montei Nilzito e me despedi. Ela acenou e voltou ao mato. Algo que vi gelou minha espinha: por baixo do casacão era visível um rabo. Muito semelhante a um de vaca. Era um rabo!

 

            Trotei o mais rápido que meu cavalo agüentava. Em casa, meus pais estavam alarmados. Minha mãe chorou quando me viu e meu pai me deu uma surra com o cinto. Se a noite já estava difícil, dormir com dor foi ainda pior...

            Pela manhã as coisas estavam mais mansas. Tomei o café (sem bolo dessa vez) e fui à varanda, após ter de prometer a minha mãe de pés juntos que nunca mais iria ao bosque. Começava a desconfiar de que meu avô nunca saía de lá. Estava sentado como de sempre. Sentei ao seu lado, no chão mesmo, emburrado ainda com a surra e as broncas. “Você a viu, não foi?” – uma voz rouca cortou o ar. Era vovô. Mesmo olhando fixamente para o horizonte, sua voz, um tanto desacostumada em ser pronunciada, fluía. “Você viu a mulher com rabo, não viu?” – e parecia existir desapontamento em sua fala. “Vi... mas como o senhor sabe? Eu não falei para ninguém”. “Só assim você conseguiria voltar do bosque. É muito bobo para retornar sozinho. Sua teimosia pode lhe custar caro no futuro, menino”. “O senhor já a viu?”. “Uma vez, quando era mais novo do que você. Tinha ido buscar lenha e lá estava a moça loira, tocando uma flauta. Ela sorriu o sorriso mais bonito que já vi, e correu para a mata. Nunca contei isso a sua vó, pois já estávamos enamorados na época; mesmo crianças, eu sentia que ela seria minha mulher para sempre”. “Vô... o que ela é?”. “Dizem que é cria do Diabo caolho, aquele que vive com dois corvos”. “O Diabo cria coisas bonitas então...”. “Não diga asneiras, moleque. Já viu alguém com rabo de vaca? Não é coisa desse mundo, com certeza”. “Ela me pareceu boa. Talvez ela não seja isso que pensam”. “Homens já entraram lá e não voltaram. Ela é má”. Compreendi que aquela conversa não daria em nada. Fiquei com minha impressão para mim e fui levar o resto do jantar para os porcos. Dois dias se perderam. Dois dias se perderam com meus pensamentos voltados exclusivamente à ela. Não poderia ser ruim! Ela me salvou, me trouxe para casa, praticamente. Vovô não mais falou e me senti sozinho. Na terceira noite, quando todos dormiam, escapuli pela janela, indo ao estábulo, onde Nilzito me esperava cochilando.    

            Paramos em frente ao bosque. “Psiu”. “Psiu, moça, você está aí?”. Nenhuma resposta, nenhuma luz... Desapontado, fui dormir.

 

            No dia seguinte recordei o que meu avô falara: a música! Eu sabia – muito mal – assoprar uma gaita que ganhara de meu tio no aniversário do ano anterior. Novamente voltei ao bosque à noite. Sentei-me na grama fofa e tentei tocar algo. Não sabia nenhuma música conhecida, então fiz uns sons a esmo. Quando havia desistido e montado Nilzito, escutei a flauta. Concentrando-me na escuridão, vi, ao longe, um ponto luminoso. Fui até ele, guiado pelo som tranqüilo dos sopros harmoniosos. Ali estava ela. A garota loira de olhos claros e pele brilhante. Dessa vez, para o meu conforto, ela usava um vestido rosa, que ia até o joelho. Seu rabo de vaca parecia ter vida própria, dançando ao som da música. Confesso que isso me enojava um pouco, mas com seu sorriso, a menina me conquistava. Ela parou e sorriu.

“Olá. Tudo bem, garoto camponês?”

“Você fala minha língua?”

“Aprendi com você, naquele dia”.

“Você vive aqui no bosque?”

“Sim”.

“Sozinha?”

“Sim”.

“Não tem medo?”

“Não preciso! Sinto-me segura aqui, entre meus iguais”.

“Olha... obrigado por aquele dia. Ninguém acreditaria se eu dissesse que você... Sabe, você é real? Meu avô disse que você é filha do Diabo...”

“Seu avô é um bom homem que conheci há anos. Um pouco tonto, é verdade, mas boa pessoa. Vi isso em sua alma. E não sou filha do Diabo. Meu pai ficaria ofendido se ouvisse isso”.

“Quem é seu pai?”

“Tudo” – e sorriu apontando ao redor. Pensei que era louca a menina.

“Escute. Meu avô disse que nenhum homem jamais voltou do bosque... É verdade?”

“Verdade! Sim, é!” – e tapou a boca ao rir baixinho.

“Mas o que acontece a eles?! Eles entram e nunca retornam...”

“Os homens nunca retornam, disse bem. Eles são maus quando eu ofereço ajuda. Nos dias de chuva eles são especialmente maus...” – e começou a se entristecer.

“Por que são maus? O que eles fazem a você?”

“Eles me tocam de maneira nojenta. Eles têm pensamentos feios quando ofereço meu casaco para protegê-los. Então meu pai dá um jeito neles, e eles não voltam mais” – enraivou-se.

“Ok, entendi. Nem vou perguntar como o seu pai fica. Porém, se me permite perguntar: você é um fantasma?”

“De modo algum! Sou mais real do que imagina”.

“E o que você faz por aqui? Nunca sai do bosque?”

“Nunca. Espero um bom coração... Veja, notei que você é um pouco lento então vou explicar. Sou uma mulher hulder. E estou à espera de um marido. Vê o rabo de vaca? Pois é, ao casar, ele desaparece, e ganho a aparência de uma humana comum. E quando isso acontece, eu sei que não voltarei ao bosque, à floresta, à montanha. A infelicidade tomará conta de mim, mas o meu desejo de amar é maior e, por isso, há séculos espero alguém que me ame pelo o que sou, não homens nojentos que me desejam para saciar seus instintos”.

Era muita informação para mim. Fiquei desnorteado. Sentei-me e respirei fundo. Ela se agachou ao meu lado, e vi seu rosto transpirar carinho e paixão. Aquilo me envolveu. Eu sabia que não podia ser real, simplesmente não podia! Entretanto, era tarde, eu estava completamente fisgado por ela. Não sei se era amor, mas uma coisa nunca sentida antes preenchia meu peito. Não precisei falar nada. Talvez ela conseguisse ouvir meus pensamentos, mas a verdade é que ela chegou mais perto... e me deu um beijo de luz. O mais doce hidromel que já bebi foi degustado diretamente da fonte dos lábios dela. Doravante, ela seria minha amada!

 

Prometi a ela que casaria assim que pudesse, quando tivesse idade e condições financeiras. E me esforcei para isso. Todo ano voltávamos à fazenda, mesmo após a morte de meu avô, as férias eram todas ali. Eu sempre a via por dois meses e depois voltava para a cidade. Não falava nada aos meus pais, eles nunca entenderiam.

Terminei a faculdade aos 22 anos. Arrumei um ótimo emprego numa multinacional. Dei entrada no meu apartamento e saí da saia de minha mãe. Com meu carro próprio, naquele ano fui sozinho para a fazenda. Com bastante tempo entre esses acontecimentos, pude pesquisar a vida de uma mulher hulder na biblioteca central, descobrindo que o casamento entre homem e hulder se dá quando o rapaz entrega uma flauta confeccionada por si mesmo em troca do antigo instrumento tocado pela mulher com rabo de vaca. Um beijo apaixonado sela o matrimônio.

Foi o que fiz. Durante a noite fui ao bosque de carro (Nilzito há muito morrera). Sentei-me à beira da mata e assoprei algumas notas na minha flauta. Lá do fundo veio a resposta e a luz chegou até mim, saindo do bosque. A hulder estava mais madura, ela envelhecera junto comigo, também aparentava minha idade e, juro!, era simplesmente a mulher mais linda de todo o mundo! Pasmo com sua beleza, entreguei a flauta com mãos trêmulas. Ela sorriu o sorriso divino. Deu-me a sua. Beijamo-nos. Uma fina garoa começou a cair. Perdíamos a respiração um no outro. Ela foi brilhando cada vez mais e, reparei, aquele rabo de vaca foi minguando, até desaparecer por completo. Agora ela era uma humana de verdade. E nos amamos ali, sobre a relva da fazenda de meus avós.

 

Isso foi há muitos anos. E tudo aconteceu. De verdade. Por décadas vivemos felizes, e tivemos um casal de filhos. Eles já não moram comigo, cada um tem a vida feita. E hoje, vejam só, tenho netos! Minha esposa viveu contente ao meu lado na cidade. Todo ano voltávamos ao bosque e lá ela permanecia uma semana. Eu nunca soube o que fazia, e nunca perguntei. Acredito que certas coisas sempre têm de ser feitas em segredo. Quando ficamos só nós dois em casa, a solidão começou a abater minha amada. O que havia dito era verdade: seu lar era o bosque, a floresta, as montanhas. Os médicos receitavam antidepressivos, sem saber a raiz do problema. Mas eu o sabia.

 

Aos 67 anos, vi nos olhos de minha mulher o seu desejo de voltar ao seu mundo. Entendi e concordei, grato pelos anos mais felizes de minha vida junto a ela. Retornamos à fazenda. Os cabelos dela estavam brancos, por debaixo das rugas, ainda era possível ver que fora uma mulher muito bela. À noite, caminhamos até o bosque, em passos lentos, eternos.

“Enfim, meu querido, é hora de me despedir. Saiba que amei você mais do que tudo em minha longa vida. É hora de voltar para o meu pai. Ele sente saudades”.

Eu chorava e nada consegui dizer além de um “Eu amei você demais, meu amor!”

Ela sorriu seu sorriso encantador. Beijou-me. Deu um último abraço e entrou na mata. Uma luz muito forte tomou conta de seu corpo, e foi diminuindo de tamanho, mantendo a intensidade. Em poucos minutos vi que não era mais a minha esposa que ali estava: uma bela menina loira de olhos claros se levantava do chão. Sorriu pra mim. Acenou. E correu nua para as matas, perdendo-se.

E hoje lhes escrevo sentado aqui, na varanda da casa de meus avós. Finalmente entendi o olhar vazio de vovô: é o olhar de quem sente falta de seu amor.

Só resta mais uma coisa a ser dita. Aos curiosos, o idioma com que a hulder se comunicou comigo pela primeira vez naquele longínquo ano, sob a chuva, foi o norueguês, como ela me afirmou depois.


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