Pular para o conteúdo principal

Pretérito

O que hoje escrevo não é belo nem feio. Alegre nem triste. Escrevo recordações e elas não possuem cores, como os sonhos – que afirmamos serem lindos quando sequer podemos dizer se havia sol. O que hoje escrevo é o que se passou há dois anos e que se passará para sempre, ao menos, para mim. A maioria de vocês, amigos, não esteve ao meu lado nesse dia, e, juro, se estivesse, talvez hoje não tivesse coragem de lhes olhar. Na verdade, só foram saber algum tempo depois: tempo esse em que amarguei todas as humilhações que pude agüentar. Mas fico feliz que tenham estado afastados, pois nada poderiam fazer. Eu mesmo só fui saber de tudo muito tempo depois. Soube por meio de um semi-choro de um amigo: “Você não sabe o que se passou lá em casa! O estado em que eu e meus pais ficamos, pensando em você. Você esteve quase morto e não pudemos nem chegar perto!” Um sorriso de escárnio se desloca em minha face: fico grato por suas preocupações e mais contente ainda em saber que minha família conseguiu manter meu desejo mesmo quando estive ausente da vivência. “Para ser sincero, você mudou muito”. Um pedaço de mim morreu. E ouço a voz embargada: “Por quê?! Você tinha vida, Alex!” Sinto muito. E só posso sentir. Mudanças vieram para melhor; embora esse amigo tenha me visto, infelizmente, poucos meses depois, contorcendo-me na cama, batendo as mãos contra o rosto. Fiz muito disso em pouco tempo. Só quem sabe o que é a angústia extrema entende que a dor física pode curar. Eu não tinha mais as marcas de bisturi, mas elas continuam aqui em meus braços, e sempre vão estar. A questão não é recordar que existem, é aprender a ignorá-las, para que não ardam mais. Às vezes consigo.

Porém, sofri um castigo justo, confesso. E me foi de muita valia: aprendi a re-olhar o mundo. Mesmo que tenha que sempre encarar o olhar preocupado de meus pais cada vez que fico triste por um motivo à-toa, mesmo que eu tenha que encarar as pessoas do meu prédio que, graças ao ocorrido, valeu-me o temor dos vizinhos, pois sou “louco”, mesmo que eu tenha que encarar o rosto assustado dos farmacêuticos ao abrirem a sessão de tarjados da drogaria, mesmo que eu me sinta impotente a cada remédio que levo à boca a cada dia, mesmo que me sinta desconfortável com cada noticiário de TV que possa fazer referência indireta ao meu passado, mesmo que eu tenha um estigma sempre visível, mesmo assim, isso me fez rever tudo sobre o todo. Por mais “tristes” que sejam as músicas que meu violão traz, para mim, são superações. A cada trabalho acadêmico que desempenho, dou um tapa na cara de cada pessoa que jurou de pés juntos que minha vida profissional acabara em 2005. A cada verso ou linha de prosa que hoje escrevo vejo o quanto evoluí. A cada pessoa que sai de minha vida, percebo o quão meus amigos são importantes.

Já sofri por causas familiares, mas, no final das contas, o resumo sempre recai sobre paixões. Jamais terei vergonha de dizer: “Sim, sou fraco!”, “Sim, devo à paixão meus cortes de bisturi”, “Sim, devo principalmente às mulheres a causa de minha alegria, e um pouco de dor”. Vocês sabem que tudo o que se passou comigo no fim do mês de Fevereiro de 2005 foi por amor, e certamente sabem que hoje escrevo por amor. Devo agradecer a vocês por esses dois anos em que aprendi a andar. Tive, e tenho, altos e baixos, e eles acontecem com certa freqüência. Por isso que também peço perdão aos que magoei nesse tempo (embora pedir desculpas não justifique meus atos). Não sei se “revivi” melhor ou pior para vocês, pois cada um é livre para julgar, contudo sei que muito mudou. E como eu disse: tudo se baseia em amor. Posso enfraquecer quando estou sem, pois não vejo orientação em minha vida. Mas, também nesses momentos, vocês estão aqui, presentes, amigos antigos e novos.

Se representei bem a comédia que é viver – como diria Augusto – não sei. Mas, ao menos, representei. Quando precisei de braços para me abraçar vocês estiveram presentes. Quando procurei ouvidos, os encontrei. Não precisarei que vocês sequem lágrimas: nunca fizeram e, prometo, nunca o farão.

 

Andem na linha.


Postagens mais visitadas deste blog

Vermelho Açafrão

  O martelar das horas era inexorável: tudo ali passava no menor tempo possível, como um pássaro pulando pelo chão ao invés de voar. As unhas pretas batiam na caneca de alumínio com café em um ritmo descompassado – um alerta para que ela se mantivesse acordada no marasmo da tarde. A tela do computador irradiava o seu brilho pálido, mesclando-se com sua pele que não via a praia há muito tempo. Havia números ali pululando: uma quase infinita ordem que regia o mundo financeiro. Um dia quiçá ela seria psicóloga, mas, por enquanto, contadora trazia o pagamento no início de cada mês.             A hipnose do meio da tarde sempre vinha. Era inevitável. A mente dela deixava o corpo e seguia outro rumo. Mais bonito? Talvez. Interessante? Certamente. Nesses momentos, as dores do passado cessavam: não havia mais agulhas, cortes, mesas geladas... Tudo ali era acolhedor, e as memórias do passado – as boas memórias – povoavam a paisagem repleta de gatos, doces e salgados. Sua mãe estava ali também

As visitas indesejadas

                 Chá é algo que fui aprendendo a gostar. Tenho os meus preferidos, claro. Não sou muito adepto do chá preto puro, mas gosto das combinações que fazem com ele. Às vezes, me sinto como o capitão Picard. E, às vezes, uso a desculpa do chá para ter uma caneca quente para segurar nos dias mais frios. No verão, chá mate gelado, claro.             O chá tem sido meu companheiro – ou companheira – durante os momentos que recebo visitas. E elas sempre chegam aqui em minha casa. Estou eu ali quieto, fazendo as minhas coisas, e ouço alguém batendo à porta. Eu já sei que, nesse momento, as coisas mudarão. Eu me levanto da cadeira ou do sofá, passo pelo corredor e abro a porta. E ali está a visita. Às vezes ela está sorridente. Em outros momentos, triste. Muitas vezes séria. De vez em quando com raiva. Eu simplesmente a deixo entrar: não tenho outra opção. Não mais... Enquanto ela toma um assento, eu vou para a cozinha e preparo o meu chá.             Eu tento não ser mal educad

UCP

  “Aqui consta que já é a terceira vez que procura a nossa clínica” – os olhos da mulher são brilhantes, lembram dois vagalumes perdidos na beira do rio. “Foram cento e vinte... Não: cento e quarenta anos de atendimento. O seu seguro cobre um invólucro novo, claro, mas podemos aumentar a sua franquia caso deseje manter o mesmo e apenas modificar a UCP. Fica a seu critério. Apenas lembro que suicídios, ou tentativas de suicídio, não são cobertos na franquia: oferecemos tratamento de humor, porém, os custos de reparo serão seus”. Aceno com a cabeça. “O que vai ser? Mudança total ou modificação da UCP?”. Mudança total. Chega dessa merda. “O senhor conhece o procedimento. Teremos de conversar antes de termos sua decisão final”. Não podemos simplesmente pular essa parte? “É impossível. Estou aqui para ajudar...”. Tudo bem, então. “Por favor, sente-se. Isso, fique à vontade. Confortável?”. Aham. “Então... Porque está nos procurando pela terceira vez? Como posso ajudá-lo?”. Você é a terceir